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quinta-feira, 31 de julho de 2014

MASSACRE DOS PALESTINOS - O que é o Hamas.

O que é o Hamas


Publicado na bbc.
Integrantes do Hamas tomam o escritório do presidente palestino Mahmoud Abbas, em 2007
Integrantes do Hamas tomam o escritório do presidente palestino Mahmoud Abbas, em 2007
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O governo de Israel justifica a sua mais recente operação militar em Gaza – Borda de Proteção – afirmando que precisa se proteger de foguetes lançados em seu território pelo grupo palestino Hamas.
Mas a faceta militar é apenas dos rostos desta facção: o grupo militante, que controla a Faixa de Gaza e não reconhece a existência do Estado de Israel, é também um partido político e promove assistência social.
O Hamas é o maior dos vários grupos islâmicos militantes palestinos. Seu nome é a sigla em árabe para Movimento de Resistência Islâmica. A agremiação surgiu após o início da primeira Intifada (revolta palestina) contra a ocupação israelense da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, em 1987.
Em sua carta de fundação, o grupo estabelece dois objetivos: promover a luta armada contra Israel – missão conduzida por seu braço militar, as brigadas Al-Qassam – e realizar programas de bem-estar social.
Diferente do grupo palestino rival Fatah, que controla a Cisjordânia e concorda com uma solução para o conflito que envolva a criação de dois Estados – Israel e Palestina –, o Hamas defende a criação de um único Estado palestino que ocuparia a área onde hoje estão Israel, a Faixa de Gaza e a Cisjordânia.
Por essa razão, e por sua longa história de ataques e sua recusa em renunciar à violência, o Hamas é designado como uma organização terrorista por Israel, Estados Unidos, União Europeia, Canadá e Japão. Para os países ocidentais, o Hamas está comprometido com a destruição de Israel.
Mas, para seus apoiadores, o Hamas é visto como um movimento de resistência legítima.
O grupo cresceu nos anos 1980 e 1990 como organização social nas cidades e campos de refugiados então sitiados pelas tropas israelenses. Nelas, o Hamas organizava clínicas e escolas para palestinos insatisfeitos com a ineficiente organização palestina controlada pelo Fatah, a Autoridade Nacional Palestina.
Desde 2005, o grupo está envolvido no processo político palestino, tornando-se o primeiro grupo islâmico no mundo árabe a conquistar o poder democraticamente (antes de tomar à força o controle da fortaleza de Gaza).
O Hamas ganhou fama depois da primeira Intifada, como o principal opositor palestino ao processo de paz conhecido como os Acordos de Oslo.
Estas negociações, lideradas pelo governo do presidente americano Bill Clinton, previa a remoção gradual e parcial das tropas israelenses dos territórios ocupados, em troca de compromissos das autoridades palestinas de proteger a segurança de Israel.
Mas a continuada agressão entre israelenses e palestinos, os objetivos autodeclarados do Hamas de se opor à existência de Israel e não renunciar à violência, e a subsequente retirada de Israel do processo de paz, puseram as negociações a pique.
Em fevereiro e março de 1996 o Hamas cometeu uma série de atentados suicidas que causaram a morte de quase 60 israelenses. As ações foram uma retaliação contra o assassinato um de seus membros em dezembro de 1995.
Meses depois, os israelenses elegeram o linha-dura Binyamin Netanyahu – um claro oponente dos acordos de Oslo – como primeiro-ministro.
O fracasso dos acordos de Oslo, cujos objetivos não puderam ser reavivados no encontro de Camp David, em meados do ano 2000, e a segunda Intifada, iniciada meses depois, deram ao Hamas mais fôlego e influência.
Quando o grupo chegou ao poder nos territórios palestinos em 2006, obtendo uma vitória impressionante nas eleições do Conselho Legislativo Palestino (PLC), a mesa estava posta para disputas com a facção rival, Fatah, liderada pelo presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas.
A Autoridade Palestina é formada principalmente por nacionalistas palestinos seculares que acreditam em um acordo definitivo com Israel para a criação de dois Estados. Desde a morte do líder da Fatah, Yasser Arafat, em 2004, a Autoridade Palestina era controlada por Mahmoud Abbas.
Hamas e Fatah formaram um governo de união nacional em março de 2007. Pouco depois, Abbas dissolveu o governo.
Mas em junho de 2007, confrontos mortais entre as duas facções se intensificaram. Alegando que forças do Fatah estavam planejando um golpe, o Hamas assumiu o controle da Faixa de Gaza à força. A Cisjordânia permaneceu sob o controle do Fatah.
Israel e Egito iniciaram um bloqueio às fronteiras de Gaza que permanece em vigor até hoje.
Abbas sempre viu o lançamento de foguetes do Hamas contra Israel como algo contraproducente, causando relativamente poucos danos a Israel, mas provocando uma dura resposta por parte dos militares israelenses.
Para tentar eliminar o Hamas, Israel já realizou três grandes ações militares na região: Operação Chumbo Fundido, em dezembro de 2008, a Operação Pilar de Defesa, em novembro de 2012, e a Operação Borda de Proteção, em julho de 2014.
As ofensivas foram precedidas de escaladas na luta transfronteiriça, com dezenas de ataques com foguetes a partir de Gaza e ataques aéreos contra a região por parte de Israel.
O Hamas saiu dos conflitos de 2008 e 2012 degradado militarmente, mas com apoio renovado entre os palestinos em Gaza e na Cisjordânia, por ter confrontado Israel e sobrevivido.
Apesar das várias operações israelenses, e também das tentativas de repressão da própria Autoridade Nacional Palestina, o Hamas encontrou nas ações violentas um efetivo poder de veto sobre o processo de paz.
Primeiro com os atentados suicidas realizados nos anos 1990 e início dos anos 2000 e, mais recentemente, os lançamentos de foguetes contra Israel.
Muitos palestinos veem nessas operações uma forma legítima de lutar contra o que consideram uma opressão israelense. Por isso, o Hamas sempre se esquivou de assinar um cessar-fogo permanente enquanto Israel ocupar os territórios palestinos – embora tenha havido momentos mais calmos na turbulenta história desta relação.
O grupo continuou a lutar sob o bloqueio imposto em conjunto por Israel e Egito a Gaza, mas ficou mais isolado após se desentender com potências regionais na esteira da Primavera Árabe.
A derrubada do presidente egípcio, Mohammed Morsi, um aliado-chave, em julho de 2013 foi mais um golpe.
Em abril de 2014, o Hamas concordou com um acordo de reconciliação Fatah, que levou à formação de um governo de unidade nacional.

POLÍTICA - 14° Plenária Nacional da CUT.

Os debates da 14ª Plenária Nacional da
CUT, que começou no dia 28 e prossegue
até sexta, 01/08, em Guarulhos (SP), apontam
como central a reeleição da presidenta
Dilma Rousseff, para ampliar e fortalecer as
conquistas da classe trabalhadora. Na presença
do ex-presidente Lula, que participou
da abertura do evento, e da própria presidenta
Dilma, que compareceu à Plenária
nesta quinta-feira, 31, os cerca de 700 delegados
cutistas defenderam a reforma do sistema
político, a implantação de conselhos
populares, a regulamentação da mídia e o
avanço das políticas públicas voltadas para
a educação, saúde, transporte e segurança.
Com o tema “Organizar, Lutar e Avançar
nas Conquistas”, a Plenária Nacional da
CUT repercutiu a relação direta dos debates
políticos com as eleições em curso e a
agenda trabalhista, através do lançamento
da Plataforma CUT da Classe Trabalhadora,
com propostas que englobam temas históricos,
como o fim do fator previdenciário e
a redução da jornada de trabalho. O fortalecimento
da Petrobrás enquanto empresa
Plenária Nacional da CUT define
como central a reeleição de Dilma
pública e comprometida com o desenvolvimento
nacional também integra o conjunto
de propostas da CUT que foi apresentado
pessoalmente à presidenta Dilma.
Além dos debates em torno da conjuntura
política, nacional e internacional, a
Plenária discutiu alterações estatutárias,
estratégias de luta e ações para
o próximo período. As delegações, incluindo
os petroleiros da FUP e dos sindicatos
do campo da CUT, realizaram
nesta quinta-feira, 31, um ato conjunto
com os movimentos sociais em defesa
do Plebiscito Popular por uma Constituinte
Exclusiva e Soberana do Sistema
.

MASSACRE DOS PALESTINOS - Carta do ator espanhol Javier Bardem.

Javier Bardem escreve carta contra a covardia de Israel

Javier Bardem gaza israel
Ator Javier Bardem repudia massacre de Israel em Gaza (Foto: Matt Sayles/AP)
Javier Bardem, vencedor do Oscar de melhor ator coadjuvante no filme Onde os Fracos não têm vez, publicou uma carta de repúdio ao massacre promovido por Israel na Faixa de Gaza. Na carta, divulgada originalmente pelo jornal La Marea, o ator espanhol considera vexatória a postura do Ocidente diante do genocídio do povo palestino. Leia a íntegra abaixo.

GENOCÍDIO

No horror que está acontecendo em Gaza não há espaço para equidistância nem neutralidade. É uma guerra de ocupação e de extermínio contra um povo sem meios, confinado em um território mínimo, sem água, e onde hospitais, ambulâncias e crianças são alvos e suspeitas de terrorismo. Difícil de entender e impossível de justificar. E é vergonhosa a postura ocidental de permitir tal genocídio. Não entendo essa barbárie e os horríveis antecedentes vividos pelo povo judeu tornam-na ainda mais incompreensível. Só as alianças geopolíticas, essa máscara hipócrita dos negócios – como, por exemplo, a venda de armas – explicam a posição vergonhosa dos Estados Unidos, União Europeia e Espanha.
Sei que eles sempre deslegitimaram meu direito à opinião com temas pessoais, por isso quero explicar os seguintes pontos:
VEJA TAMBÉM: Médico convida Obama a passar uma noite em hospital de Gaza
Sim, meu filho nasceu em um hospital judeu porque tenho muita gente querida ao meu redor que é judia, e porque ser judeu não é sinônimo de apoiar um massacre, assim como ser hebreu não é o mesmo que ser sionista, e ser palestino não é ser um terrorista do Hamas. Isso é tão absurdo como dizer que alguém ser alemão o vincula com o nazismo.
Sim, trabalho também nos EUA, onde tenho amigos e conhecidos hebreus que rechaçam tais intervenções e políticas de agressão. “Não se pode invocar autodefesa quando se assassina crianças”, me dizia um deles por telefone ontem mesmo. E também outros com que discuto abertamente sobre nossas posições divergentes.
Sim, sou europeu e me envergonha uma comunidade que diz me representar com seu silêncio e ausência de vergonha. Sim, vivo na Espanha pagando meus impostos e não quero que meu dinheiro financie políticas que apoiem esta barbárie e o negócio armamentista com outros países que se enriquecem matando crianças inocentes. Sim, estou indignado, envergonhado e dolorido por tanta injustiça e pelo assassinato de seres humanos. Essas crianças são nossos filhos. É o horror.
Oxalá haja compaixão nos corações dos que matam e desapareça esse veneno assassino que só cria mais ódio e violência. Que aqueles israelenses e palestinos que só sonham com paz e convivência possam um dia partilhar sua solução.
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POLÍTICA - A volta da "Dilma Bolada".


Dilma bolada retorna ao Facebook

dilma bolada volta facebook
Imagem divulgada por Dilma Bolada em publicação feita nesta terça-feira (29)
Depois de uma semana de silêncio nas redes sociais, Dilma Bolada voltou ao Facebook e ao Twitter na manhã desta terça-feira (29), “para o desespero do bonde do recalque”.
Na última quinta-feira (24), o criador do perfil, Jeferson Monteiro, anunciou a retirada do perfil da personagem das redes sociais dizendo que “entramos no período eleitoral e esse ano não vai ser mole”.
O incômodo de Jeferson parece não ter durado muito e o perfil voltou a ser atualizado normalmente. Segundo Dilma Bolada, o tempo fora das redes se deveu a “mini-férias pós Copa“.
Na mensagem de retorno publicada no Facebook, a personagem inspirada na presidente Dilma Rousseff afirma que “País rico é país com Presidenta que não abandona seu povo nem nas redes sociais”.

POLÍTICA - O mercado contra a Dilma.

O mercado contra Dilma, Por Jasson de Oliveira Andrade




O Santander enviou aos clientes de renda alta um extrato alertando sobre o perigo da reeleição da presidenta Dilma. Esse alerta criou uma polêmica. O presidente mundial do banco, Emílio Botin, segundo reportagem do Estadão em 28/7, afirmou que o informe “não é do banco, mas de um analista”. O jornal noticiou ainda: o Santander informou que todas as pessoas responsáveis pela elaboração e aprovação do informe serão demitidas. Com essa drástica medida parece que a polêmica terminou. No entanto, como se verá, não é apenas o Santander que é contra Dilma e sim o Mercado.
A revista CartaCapital desta semana focalizou o assunto. Na capa consta: “E o Mercado criou o Dilmômetro – Como o sistema financeiro pretende influenciar as urnas”. Na página 28, consta longa reportagem de Carlos Drummond, sob o título “O Mercado contra Dilma – O sistema financeiro não economiza fichas para derrotar a candidata do PT”. A reportagem é longa e não temos como resumi-la. No entanto, o leitor tem uma idéia do que se trata. Já Eliane Cantanhêde, em artigo publicado na Folha (27/7), também analisou a interferência do sistema financeiro: “(...) para o PT e a campanha da reeleição, é, e não apenas parece ser, uma vantagem poder usar os mesmíssimos dados [do Santander] para cristalizar ainda mais o discurso, talvez a sensação, de que Dilma é rejeitada “pela elite”, “pelos mercados”, “pelos bancos” por sua alma “robinhoodiana” de tirar de ricos insaciáveis para dar aos pobres famintos. (...) Não é bom para Aécio Neves e para Eduardo Campos colar suas imagens, seus discursos e seus programas a essa “elite”, símbolo da desigualdade ancestral brasileira. E é bom para Dilma mostrar-se como a mulher que lutou contra a ditadura e agora enfrenta os poderosos”. Na entrevista que concedeu ao UOL (Folha), a presidenta Dilma, ao abordar o assunto, criticou: “Eu acho muito perigoso especular em períodos eleitorais. (...) É inadmissível para qualquer país, principalmente um país que é a sétima economia do mundo, aceitar qualquer nível de interferência de qualquer integrante do sistema financeiro, de forma institucional, na atividade eleitoral e política”, finalizando: “Eu vou ter uma atitude bastante clara em relação ao banco [Santander]”, evitando, porém, dizer qual.
Será que essa oposição do sistema financeiro à reeleição de Dilma se tornará a favor de quem se quer destruir? Aí o tiro sairá pela culatra. A conferir.
JASSON DE OLIVEIRA ANDRADE é jornalista em Mogi Guaçu 
Julho de 2014
SAIBA MAIS:

Banespa e ‘‘rombos’’

No mês de maio, o Banespa teve um lucro na faixa de R$ 120 milhões, retomando assim a média mensal que lhe permitiu lucrar mais de R$ 1 bilhão no ano passado. O resultado exige a reflexão dos paulistas, pois volta a desmentir os argumentos apresentados para justificar a ‘‘privatização’’ do banco, vergonhosamente entregue pelo governo Mario Covas ao governo federal. O Banespa nunca esteve ‘‘quebrado’’ — pois tinha bilhões a receber do governo do Estado, uma situação totalmente diferente dos bancos privados que ‘‘quebraram’’ porque deviam aos depositantes, investidores em fundos que eles administravam etc., uma cifra muito superior aos valores que tinham a receber como retorno dos empréstimos que haviam feito. ‘‘Rombo’’, como você sabe muito bem, é quando alguém tem mais dívidas do que créditos. É o caso, por exemplo, do Banco Nacional, que tinha um ‘‘rombo’’ tão gigantesco, que o governo despejou nada menos de R$ 15 bilhões em seu ‘‘socorro’’.

Além de não apresentar ‘‘rombo’’, o Banespa é altamente lucrativo — como ficou demonstrado anos depois da ‘‘intervenção’’ combinada entre o governador Mario Covas e o presidente FHC. E é essa lucratividade que continua evidente, nos resultados de maio último. E são eles que, na verdade, devem ‘‘explodir’’ como autêntica bomba, dentro do próprio Judiciário, contra a ‘‘privatização’’ do Banespa. Por que? Como você sabe, há várias ações judiciais contra a venda do banco. Uma delas, que a grande imprensa procura esconder, é de autoria de nada menos de 11 procuradores da República — esses promotores fantásticos do Ministério Público que estão tentando combater a corrupção, negociatas e desmandos de governantes no Brasil (e que, por isso mesmo, o honesto governo Fernando Henrique Cardoso tentou silenciar, com a chamada ‘‘lei da mordaça’’).

Pois bem: nessa ação, os procuradores apontam mais de 20 ilegalidades e irregularidades na privatização do Banespa, transformada em negócio suspeito. Você sabe o que aconteceu? A Justiça confirmou que as irregularidades e ilegalidades existem e suspendeu temporariamente o processo de leilão do Banespa. Mas essa decisão foi cancelada, dias mais tarde. Por que? A Justiça mudou de ponto de vista? Não. Ela reiterou que há irregularidades e ilegalidades no processo. Mas aceitou o ‘‘argumento’’ apresentado pelo governo federal de que o atraso na privatização do Banespa traria um prejuízo ao Tesouro da ordem de R$ 400 milhões — em um ano.

Que prejuízo seria esse? O governo diz que, se o Banespa fosse vendido por R$ 2 bilhões, usaria o dinheiro para reduzir a dívida do Tesouro, que paga juros de 20% ao ano, e representam portanto R$ 400 milhões (20% sobre os R$ 2 bilhões) ao ano. Os lucros de maio mostram mais uma vez que o argumento é mentiroso. Se ficar com o Banespa, o governo participará dos lucros de R$ 1 bilhão ao ano, ou duas vezes e meia o tal ‘‘prejuízo’’ de R$ 400 milhões. A Justiça vai enxergar a verdade. A privatização do Banespa continuará adiada. O povo paulista ganha tempo para organizar movimentos que a impeçam definitivamente.

ANOS DE CHUMBO - Aloysio Nunes e a vergonha do passado esquerdista.

Aloysio Nunes e a vergonha do passado esquerdista

aloysio nunes esquerda passado
Senador Aloysio Nunes (PSDB-SP), um ex-esquerdista (divulgação)
Em seu site pessoal, o candidato a vice na chapa de Aécio Neves, senador Aloysio Nunes (PSDB-SP), resume em pouco mais de dez palavras o que foi boa parte da sua militância e principalmente os cinco anos de luta armada contra a ditadura militar pela Ação Libertadora Nacional (ALN), uma das organizações de guerrilha mais estruturadas na época do regime: “Por conta de ações contra a ditadura militar, precisou sair do Brasil”, diz o texto na seção “biografia” do tucano sobre o período de 1963 a 1968, antes do exílio na França. A razão pelo pouco destaque à própria história não é segredo. O tucano acha que sua postura naquele período foi um erro.

Quase 30 anos depois do fim da ditadura militar, Aloysio Nunes vai disputar uma eleição presidencial justamente contra uma ex-companheira de luta. Assim como o senador tucano, a presidenta Dilma Rousseff participou da resistência à ditadura, mas por uma organização chamada Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares). Os pontos em comum entre os dois param por aí. Apesar de terem lutado pelo mesmo objetivo, Aloysio e Dilma trilharam caminhos diferentes.
O senador conheceu os seus primeiros companheiros de luta quando foi presidente do Centro Acadêmico XI de Agosto, da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, da Universidade de São Paulo (USP). Durante esse período, ele era filiado ao Partido Comunista Brasileiro. Mas foi na ALN, liderada por Carlos Marighella e Joaquim Câmara Ferreira, que ele ganhou importância na luta armada.
A militante Iara Xavier Pereira foi uma das pessoas que militou ao lado de Marighella na ALN. Irmã de Iuri Xavier – um dos líderes da organização que foi assassinado em 1972, Iara relembra o “apreço” com que Marighella falava de Aloysio Nunes. “Ele [Marighella] tinha uma confiança muito grande no Aloysio. Era muito bem quisto por ele. Falava muito bem do senador, que já era muito culto”, relembra ela.
Marighella e Aloysio atuavam muito próximos, entre outras coisas, porque o comunista não sabia dirigir e o senador ficava responsável pelo transporte do líder. De acordo com o biógrafo de Marighella, o jornalista Mário Magalhães, era com Aloysio que Marighella viajava, por exemplo, “quando soube que o congresso da União Nacional dos Estudantes havia sido descoberto em Ibiúna (SP), resultando em centenas de presos”, diz Magalhães em texto publicado no seu blog. Ainda segundo o autor da biografia Marighella – O guerrilheiro que incendiou o mundo, por causa dessa função “até hoje os detratores [de Aloysio Nunes] pensam desqualificá-lo apresentando-o como ‘o motorista de Marighella’”.
Nessa época, o senador atendia, na maioria das vezes, por outro nome. Na clandestinidade, ele era chamado principalmente de “Mateus”. Foi com essa alcunha que o tucano participou de uma das ações mais ousadas da guerrilha durante a ditadura militar. Aloysio Nunes foi um dos protagonistas do assalto ao trem pagador Santos-Jundiaí, em 1968. Quem coordenou aquele ato, com o objetivo de conseguir dinheiro para sustentar a resistência armada, foi o ferroviário Raphael Martinelli.
Hoje, aos 89 anos, ele lembra que o senador era o motorista de um dos carros que recepcionou parte dos militantes com o dinheiro levado do trem. Armado com uma carabina, o então militante ajudou a colocar a carga no veículo e levou o dinheiro arrecado. “Tinha o grupo que fazia o serviço e o grupo que aguardava a descarga, né. Ele tinha que esperar onde o trem parasse, ali em Pirituba, para recepcionar os companheiros que iam descer com a carga. O Aloysio, além de fazer a segurança, estava para receber a carga do trem, o dinheiro. Todo mundo estava armado. Num ato desse a gente não ia com intenção de matar ninguém, mas tínhamos que estar preparados”, explica Martinelli.
Pouco tempo depois desse assalto, em 1969, o senador se exilou em Paris, onde passou a ter a função de dar suporte ao grupo. Além de dar abrigo a companheiros que também se exilavam no país, Aloysio buscou apoio de outros movimentos ou partidos de esquerda na Europa. Não por coincidência, se filiou ao Partido Comunista Francês. A própria Iara, por exemplo, chegou a morar “por um ou dois meses” com Aloysio Nunes e a esposa depois da morte de Joaquim Câmara Ferreira, o Toledo, na tortura, em 1970. “Ele [Aloysio] sai do Brasil por uma série de circunstâncias e fica montando uma estrutura de apoio em Paris até 1972 ou 1973”, conta.
Os companheiros de guerrilha não sabem dizer ao certo por que, mas é nesta época que o senador dá sinais de que teria mudado de opinião a respeito da guerra contra os militares. Com a morte de vários militantes e, principalmente, dos principais líderes da ALN, Aloysio Nunes deixa a organização e volta a se filiar ao PCB. O senador não respondeu às tentativas da reportagem de entrevistá-lo, mas disse recentemente à revista Época que esse período foi “superestimado” e que não diria ter “orgulho”.
“Esse período tem sido superestimado, ele não foi decisivo para a derrota do regime militar. Longe disso, até forneceu o pretexto para o recrudescimento da repressão. Eu não diria que tenho orgulho, mas sempre agi conforme as coisas que considero corretas. Foi o que fiz naquela época. A experiência mostrou que eu estava errado, não só pelo fracasso daquela forma de luta, como também porque ela não foi travada a partir de uma perspectiva democrática”, disse à publicação.
Os companheiros desse período explicam que a mudança de linha de pensamento, já que ele saiu de partidos comunistas para fundar o PMDB e se encontrar no PSDB, não é uma grande surpresa. Assim como ele, vários outros militantes da ALN entraram política sem necessariamente se alojar em partidos de esquerda. “Eu não sei dizer se [a mudança de opinião de Aloysio Nunes] surpreendeu. Não foi o único. Aliás foram muitos que seguiram um caminho parecido com ele”, diz o advogado Aton Fon Filho, que também integrou a ALN e chegou a participar de reuniões com Aloysio.
Mas alguns dizem que Aloysio Nunes nunca teve uma orientação marxista. “É próprio da juventude ser revolucionária. Então essa juventude era revoltada com a ditadura. A maioria era revoltado com as proibições, os sumiços de médicos, vereadores, mas muitos não se enxergavam ideologicamente como comunistas, ao contrário de mim, do Marighella”, resume Martinelli.
Fonte: Pragmatismo Político.

POLÍTICA - A "Bolsa Família" de Aécio Neves.

A “Bolsa Família” de Aécio Neves

aécio neves bolsa família
Luis Carlos da Silva*, Viomundo
Em várias declarações já ouvimos Aécio dizer que os petistas não podem perder a presidência da República, dentre outros motivos, para não ver cair seu padrão de vida. Provocação barata que ocupa o espaço dos debates estruturais que deveriam presidir uma disputa eleitoral da magnitude desta que temos à frente.
Mas, entremos no clima por ele proposto.
Aécio, de fato, não precisa se preocupar com seu padrão de vida. Ganhando ou perdendo eleições. Aliás, nunca se preocupou. Descendente das oligarquias conservadoras mineiras, que foram geradas nas entranhas do Estado, desde o império, ele não tem a menor ideia do que seja empreender na iniciativa privada. Do que seja arriscar em negócios e disputas de mercado. Do que seja encarar uma falência, uma cobrança bancária, uma perda de patrimônio.
Pasmem: é esse o candidato que faz apologia do livre mercado, da iniciativa individual como base para a ascensão social e da ideia do “cada um por si” como critério de sobrevivência na selva do capitalismo contemporâneo.
Até sua carreira eleitoral tem como fato gerador a agonia terminal do avô, cuja morte “coincidiu” com o dia de Tiradentes . Seu primeiro cargo eletivo é tributário disso: em 1986 ele obteve mais de 200 mil votos para deputado federal sem lastro político próprio. Quatro anos mais tarde, distante do “fato gerador”, ele se reelegeu com magros 42.412 votos.
No quadro a seguir temos um diminuto resumo da versão de sua “bolsa família”.
aécio neves bolsa família minas gerais
Em várias declarações já ouvimos Aécio dizer que os petistas não podem perder a presidência da República, dentre outros motivos, para não ver cair seu padrão de vida. Provocação barata que ocupa o espaço dos debates estruturais que deveriam presidir uma disputa eleitoral da magnitude desta que temos à frente.
Mas, entremos no clima por ele proposto.
Aécio, de fato, não precisa se preocupar com seu padrão de vida. Ganhando ou perdendo eleições. Aliás, nunca se preocupou. Descendente das oligarquias conservadoras mineiras, que foram geradas nas entranhas do Estado, desde o império, ele não tem a menor ideia do que seja empreender na iniciativa privada. Do que seja arriscar em negócios e disputas de mercado. Do que seja encarar uma falência, uma cobrança bancária, uma perda de patrimônio.
Pasmem: é esse o candidato que faz apologia do livre mercado, da iniciativa individual como base para a ascensão social e da ideia do “cada um por si” como critério de sobrevivência na selva do capitalismo contemporâneo.

Reitera-se: trata-se de um “diminuto resumo”. A história de seus avós paternos e maternos é a reprodução integral de como foram formadas as elites mineiras: indispensável vínculo estatal (cargos de confiança no Executivo, cartório e muita influência no Judiciário), formação de patrimônio fundiário à base da incorporação de terras devolutas e estreitas ligações com carreiras parlamentares.
O pai, Aécio Cunha, por exemplo, morava no Rio de Janeiro quando, em 1952 retorna a Belo Horizonte e, com 27 anos de idade, em 1954, “elegeu-se deputado estadual, pela região do Mucuri e do Médio Jequitinhonha, ainda que pouco conhecesse a região (…)” conforme descrição no Wikipédia. Seus oito mandatos parlamentares nasceram de sua ascendência oligarca. Do avô materno, Tancredo, dispensa-se maiores apresentações. Atípico sobrevivente de várias crises institucionais que levaram presidentes à morte, à deposição e ao exílio, Tancredo Neves sempre esteve na “crista da onda”. Nunca como empresário. Quase sempre como interlocutor confiável dos que quebravam a normalidade democrática.
Aécio Neves, por sua vez, era um bon vivant quando passa a secretariar o avô, governador de Minas Gerais, a partir de 1983. Nunca foi empresário, nunca prestou concurso público, nunca chefiou nenhum empreendimento privado. Sua famosa rádio “Arco Íris” foi um presente de José Sarney e Antônio Carlos Magalhães. Boa parte de seu patrimônio é herança familiar construída pelo que se relatou anteriormente. O caso do aeroporto do município mineiro de Cláudio é apenas mais uma ponta do iceberg.
Enfim, ele é isso: um produto estatal que prega liberalismo, competição, livre mercado… para os outros. Uma contradição em movimento. Herdeiro, portanto, de uma típica “bolsa família”; só que orientada para poucos.
Aliás, esse parasitismo estatal é característico da maior parte das elites brasileiras. 
 Paradoxal é defenderem os valores neoliberais.
Luis Carlos da Silva é sociólogo
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MÍDIA - "Dilma Bolivariana"


"Dilma Bolivariana" é o novo personagem de O Globo

Jornal O Globo, da família Marinho, alimenta a tese de que o governo Dilma embarcou num projeto bolivariano, de inspiração chavista, ao repreender empresas privadas por suas opiniões contrárias à política econômica

dilma bolivariana globo chávez
Globo cria nova personagem: “Dilma Rousseff bolivariana” (Foto: (AP/Eraldo Peres)
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O jornal O Globo, da família Marinho, inicia, nesta quarta-feira, a construção de um novo personagem: a Dilma Rouseff bolivariana, que adotaria métodos chavistas de confronto e intimidação na sua relação com o setor privado.
Na manchete do jornal, informa-se, a partir de depoimentos de fontes anônimas (em off, no jargão jornalístico), que os bancos farão análises mais conservadoras sobre a economia brasileira, temendo represálias do governo federal.
É mais uma fraude jornalística. Os bancos continuarão fazendo as mesmas análises de antes. Uns vão acertar suas previsões, favorecendo seus clientes, outros errarão feito, atingindo sua própria credibilidade.
Já houve exemplos no Brasil, por exemplo, de bancos como o Credit Suisse que previram queda de 5% do PIB em anos de estabilidade econômica. Nos tempos atuais, as análises de Ilan Goldfajn, economista do Itaú Unibanco, são ainda mais ácidas do que as do Santander, e nada indica que isso mudará ou que o governo federal pretenda fazer qualquer coisa a respeito.
Qual foi, então, o erro do Santander? Basicamente, a distribuição aos clientes pessoas físicas, nos seus extratos, de uma análise pessoal de uma analista. Análise esta que, como disse o presidente mundial do banco, Emilio Botín, não refletia a posição da instituição e, portanto, não poderia ser enviada aos clientes, que, por acaso, são também eleitores e votarão nas eleições de outubro. Dizer a um poupador que a reeleição de Dilma poderia afetar suas economia é algo, segundo Botín, que fere as regras de conduta do próprio banco.
O dono do Santander foi ainda mais claro quando disse que ela foi demitida “porque fez coisa errada”. Ou seja, a única represália do caso partiu do próprio comando do Santander, que, antes mesmo da demissão, estampou um gigantesco pedido de desculpas aos clientes (e não ao governo), na home page de seu site.
No entanto, o jornal O Globo constrói a tese de que uma Dilma chavista estaria emergindo, disposta a enfrentar e a confrontar o setor privado. Na mesma reportagem, o jornal também a compara à presidente argentina Cristina Kirchner, que censuraria a divulgação de dados de inflação.
Não foi por acaso. A imagem de um setor privado amedrontado e apavorado diante de um governo intimidador é o novo mito a ser criado até as eleições de outubro.
Fonte: Pragmatismo Político.

MÍDIA - O editorial e a luta de classes.

LEITURAS DO ‘GLOBO’

O editorial e a luta de classes

Por Cátia Guimarães
A maior afronta ao Estado de direito no Brasil não são os black blocs, como defendem os pacifistas, e nem mesmo os miseráveis embrutecidos da Polícia Militar, como costumam apontar os radicais. A instituição que mais corrói até os limitados caminhos de liberdade que a democracia capitalista pode oferecer não precisa usar máscaras nem se expor ao descontentamento das ruas. Organizações Globo: esse é o aparelho privado de hegemonia que assumiu, sem medos, o papel de recolocar o barco na direção que ele seguia antes dos abalos de junho. Mas quem leu Gramsci sabe que hegemonia é mais do que um disciplinamento artificial, que o bom resultado desse processo, para a classe que quer se manter dirigente, requer que a relação entre consenso e coerção, força e convencimento, seja razoavelmente equilibrada. Quando abusa da força – ainda que só ideologicamente –, atacando violentamente todos os indivíduos, grupos e instituições que acompanham os movimentos das ruas, o/a Globo está pondo em risco a dimensão do consenso estável.
Toda a cobertura das prisões políticas ocorridas no Rio de janeiro, mas também em São Paulo, traz evidências disso. Na edição de quarta-feira (23/7) do Jornal Nacional, William Bonner não conseguiu disfarçar a cara de derrota e desaprovação quando deu a notícia de que o desembargador Siro Darlan havia concedido habeas corpus para 23 presos políticos. Informação e cara feia, nem um detalhe a mais. Mas o último golpe de verdade, pelo menos enquanto escrevo, foi um editorial publicado no dia anterior (22/7), intitulado “Entre a liberdade de manifestação e a criminalidade”, em que o jornal O Globo diz, no espaço de opinião, tudo aquilo que ele tentou travestir de informação nas matérias que fingiu que eram jornalísticas.
Mentiras e meias verdades
O texto dá destaque ao fato de “repórteres da imprensa profissional” terem se “transformado em alvo” dos vândalos (ilustrados pelos black blocs, mas não só), lembrando, como sempre, da morte do cinegrafista Santiago Andrade. Com isso, ignora no editorial, como sempre ignorou nas reportagens, a informação da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo que mostra que 70% dos casos de agressão contra profissionais da imprensa em manifestações partiu da Polícia Militar, e não de ativistas.
O editorial informa que, “liberada parte do material colhido pela polícia nas investigações, ficou-se sabendo que poderia ter havido uma carnificina nas manifestações que programaram para o dia seguinte, o da final, na Tijuca”. Em primeiro lugar, é bom esclarecer que o material não foi “liberado”, mas traficado por autoridades do Estado brasileiro diretamente para as Organizações Globo, que tiveram acesso ao inquérito antes do desembargador envolvido no caso e antes mesmo dos advogados de defesa. Portanto, “ficou-se sabendo” pelo/a Globo algo que não podia ser contestado no detalhe simplesmente porque o sujeito oculto do/da Globo não funcionou para o direito de defesa que a democracia garante.
Até que o julgamento termine – na verdade, ele primeiro precisa começar, porque até agora só houve condenação pública – e a polícia (e o/a Globo, claro) prove que drink significa coquetel molotov, líquido significa gasolina e livro significa bomba, a “carnificina” poderia ser considerada, no máximo, uma bebedeira intelectual. Se quisesse ser sensacionalista e irresponsável como o editorial do Globo, eu diria que aconteceu, de fato, uma carnificina na Tijuca, no dia da final da Copa, só que feita pela polícia. Não foi uma carnificina, não houve “matança” ou “extermínio”, que é o que essa palavra significa, mas houve gente presa por horas numa praça pública e pessoas feridas impedidas de voltar para casa ou de seguir para um hospital. E quem fez isso foram vândalos armados e fardados, organizados numa quadrilha oficial.
O editorial afirma a adesão acrítica e unilateral às informações incompletas da polícia, que as matérias publicadas pelo jornal já tinham deixado claro. Informa que as ligações telefônicas grampeadas pela polícia e “vazadas” pelo Globo apontam conversas sobre compra de fogos de artifício e confecção de bombas. Isso é mentira. Como não temos acesso a todo material do processo, não se sabe se essas conversas existem, mas o que foi disponibilizado pelo/a Globo não contém esse conteúdo.
Em nenhuma gravação apresentada pelo “furo de reportagem” desse grupo empresarial travestido de jornalístico fala-se em nada do que o editorial cita. A única referência próxima aparece quando um dos meninos investigados comenta, com sua interlocutora, sobre o coquetel molotov que ele viu cair sobre um policial. Ele ri e comemora, é verdade. O Globo só esquece de dizer que isso (o riso e a felicidade íntima com o fato) não é crime. Logo depois das primeiras manifestações de junho, ouvi uma liderança de favela contar que a maior felicidade para os moradores de comunidade que estavam na passeata foi ver os black blocs colocarem o “caveirão” para correr. Para pessoas que vivem oprimidas por uma polícia que humilha, bate e mata diariamente, principalmente nos bolsões de pobreza desse estado, não se pode pedir sentimento cristão. Não comemorei nenhuma violência pessoal sofrida por qualquer pessoa em qualquer manifestação, mas não vou fazer julgamento moral de quem sofre a dor que eu não sofro e muito menos transformar isso em crime. Lamento pelas almas sensíveis, mas a fila da nossa sensibilidade está grande, com Amarildos, Cláudias e muitas crianças palestinas para serem choradas na frente.
Do editorial para as ruas
Por fim, o editorial volta a atacar partidos políticos e sindicatos – estes referidos como “máquinas sindicais” – citando, nominalmente, o PSOL, o Sindspetro, Sindsprev e Sepe. Acusa-os de cometerem “ilegalidade”, sendo “cúmplices de atentados” e de apoiarem “organizações antidemocráticas, contrárias à Constituição”. Critica diretamente os parlamentares do PSOL que formalizaram uma queixa contra o juiz que decretou as prisões políticas junto ao Conselho Nacional de Justiça e, numa insinuação leviana, quase lamenta que o PSOL “continue a negar” seu envolvimento, não se sabe bem com o quê.
Para qualquer leitor minimamente informado e bem intencionado, não é preciso apontar o mundo de discordâncias e turbulências entre partidos políticos e movimentos sociais combativos à participação eleitoral que o editorial do Globo oportunamente ignora. O esforço é de matar todos os coelhos com uma cajadada só mas, para nos mantermos entre os ditos populares, o tiro pode sair pela culatra.
Que os anjos digam amém e a união que o Globo promoveu transborde das páginas do jornal e se transforme em ação efetiva. Que a solidariedade em função dos presos políticos, que articulou frações muito diversas de indignados com a violência e a arbitrariedade a que chegamos, sobreviva às diferenças. Que os partidos políticos “mais à esquerda” e sindicatos não recuem, e não aceitem se defender daquilo que é – ou deveria ser – a sua própria razão de existência: a relação orgânica com os movimentos sociais organizados, com as lutas populares e com a democracia direta. Transformar em acusação a solidariedade de classe, materializada no apoio financeiro e logístico a manifestações, e o exercício efetivo da representação popular que justifica um mandato eleitoral é parte da estratégia de trazer as forças sociais para o campo de quem se coloca contra elas, sob a falsa máscara do terreno neutro da democracia, que só é convocada nessa hora para mostrar os seus limites.
O momento atual no Brasil é pedagógico em ensinar que não se pode cair na armadilha de submeter inteiramente a luta concreta à institucionalidade porque, sozinha, a institucionalidade é o terreno do outro. Não há, portanto, direito de resposta que dê conta da concretude que o editorial do Globo e todo esse ataque aos princípios mínimos da democracia representam. A resposta está nas ruas, antes, durante e depois das eleições, no Executivo, no Legislativo e, principalmente, na organização de base. O importante é saber que, em todos esses espaços, existem eles e existimos nós. O nome disso é luta de classes.
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Globo inventa novo modelo de jornalismo investigativo
No tempo em que a democracia se disfarçava de bem comum, a imprensa se disfarçava de instrumento da democracia. Como tratou-se, desde sempre, da democracia burguesa, o fato de essa imprensa ter se tornado grande empresa capitalista não era um inconveniente porque o seu grande trunfo era a independência em relação ao Estado. O argumento era que a “livre concorrência” no mercado e a liberdade de “escolha individual” – o tal poder do controle remoto – seriam suficientes para impedir que interesses particulares se sobrepusessem aos interesses da sociedade. Claro que isso nunca foi verdade, até porque, no frigir dos ovos, apesar de todas as disputas internas, o Estado é instrumento de classe e, não por acaso, da mesma classe que a grande imprensa representa. Mas essa imagem fazia parte do jogo. E uma das ferramentas mais importantes desse papel que a imprensa dizia desempenhar na democracia que se dizia ter é o jornalismo investigativo, que andava mal das pernas, mas acaba de ser ressuscitado numa versão adaptada.
Depois de uma primeira cobertura abstrata, em que sobravam adjetivos e faltavam dados sobre as prisões de manifestantes ocorridas no Rio de Janeiro no dia 12/7, o/a Globo saiu a campo, correu contra o tempo e nos brindou com uma enxurrada de informações em primeira mão, verdadeiros furos de reportagem. Não é jornalismo investigativo e sim um jornalismo que reproduz a investigação dos outros – nesse caso, a polícia. Mas como também não é democracia, quem vai notar a diferença?
No lugar daquela imagem romântica do jornalista que segue pistas, convence fontes e apura as inconsistências e os não-ditos, principalmente das ações relacionadas ao Estado, temos altos executivos que, provavelmente com um simples telefonema a um dos seus, conseguem acesso a um inquérito que nem o desembargador envolvido no caso nem os advogados dos acusados tinham lido. A isso se chama furo de reportagem e ainda se diz que faz bem à tal da democracia. No lugar das emocionantes descobertas e desmentidos públicos, temos a reprodução, sem dúvidas nem questionamentos, do que a polícia diz que viu, ouviu e encontrou e tudo apresentado de forma mais concisa, definitiva e dinâmica do que no relatório da investigação. Durma-se com um barulho desses: os grandes jornalistas do/da Globo viraram copidesques da polícia.
Manipulação explícita
Foi assim que o Globo e o Jornal Nacional nos explicaram, didaticamente, que quando um manifestante fala “líquido” ou “drink”, ele quer dizer “gasolina” ou “coquetel molotov”. Entenderam? Nem eu. Não tenho ideia do que essas pessoas conversavam entre si, mas a tal grande imprensa que se diz independente deveria estar apurando junto à polícia explicações sobre como se chegou a essa conclusão. A polícia – que compõe o Estado – investiga o cidadão e a imprensa – que na farsa que se manteve até pouco tempo, fingia vigiar o Estado em defesa do cidadão – reproduz a investigação da polícia. Simples assim.
Atos que teriam sido descritos por testemunhas – que não são identificadas nas matérias e não se sabe se o são no inquérito –, ouvidas pela mesma polícia que acusa, nas páginas dos jornais viram afirmações de atos e vontades dos manifestantes presos. E tudo isso caprichado nas tintas, lançando-se mão de recursos escusos para promover uma manipulação muito explícita, própria de um período em que os grupos garantidores dos seus interesses de classe partem para o tudo ou nada.
Num momento tenso e decisivo para o desenvolvimento do caso, exatamente enquanto uma das ativistas que está com a prisão decretada pedia asilo no consulado do Uruguai, o Globo online publicou aquela que deve ter sido a chamada mais corajosamente desonesta da história desse grupo empresarial no pós-ditadura empresarial-militar: “Eloísa Samy ordenava atos violentos e fazia reuniões em casa”. Subchamada: “Advogada pede asilo político ao consulado do Uruguai no Rio”. Assim mesmo, sem “segundo fulano”, “de acordo com beltrano”. O jornal repete, em nome próprio, assumindo para si, a acusação de alguém que nem foi julgado.
Pouco tempo depois, o texto mudou – “Eloísa Samy é acusada de organizar atos violentos entre ativistas” –, mas, para não deixar dúvidas sobre a certeza que o jornal queria provocar, acrescentou-se um link em que se lia: “Escuta revela que Samy avisou manifestantes sobre busca e apreensão”. São chamadas que não correspondem aos títulos, que não correspondem ao conteúdo da matéria e, portanto, não informam coisa alguma. Desafio alguém que, influenciado por essa campanha vergonhosa, esteja apoiando a prisão dessas pessoas, a me explicar, a partir das informações dos jornais, qual foi o crime que essa moça cometeu. Talvez no inquérito as coisas estejam mais organizadas e façam algum sentido, mas o fato é que, na imprensa, há um claro e intencional esforço de desorganização e fragmentação das informações que, não compreendidas, só reforçam o senso comum conservador que, de modo geral, prefere a concretude da repressão, mesmo que injustificada, à abstração da garantia de liberdades e direitos.
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Problemas e limites
Não foi um caso isolado: “Sininho admite que há provas para ser indiciada em MG”, dizia outra chamada amplamente repetida no Globo online, com variações na versão impressa e nos outros veículos desse grupo empresarial. Em primeiro lugar, vale perceber que essa fórmula sugere ao leitor menos atento que houve um fato novo – algo como uma confissão da militante, transformada em inimiga pública número 1 pela grande imprensa brasileira. Mas isso nem de longe é o pior. O texto da matéria explica que a informação anunciada na chamada constaria de uma conversa telefônica gravada, que estaria transcrita no relatório do inquérito a que o veículo teve acesso. Mais uma vez, é trabalho da justiça apurar a procedência da “prova”, mas, jornalisticamente, o pulo do gato, com o qual as autoridades que “vazaram” o inquérito para o/a Globo certamente contaram, foi o fato de a primeira versão dessa matéria conter o link para o áudio de uma conversa telefônica da tal Sininho.
A conversa traz as palavras-chave – polícia e Minas Gerais –, mas não há nela qualquer referência a provas ou outra coisa que indique confissão de algum crime. Ao contrário: o principal argumento da ativista para não ir a Minas é que lá as coisas estavam mais tensas, com gente colocando fogo em ônibus. Há, portanto, um áudio que não corresponde ao que é citado na matéria e destacado no título e na chamada – mas quantas pessoas sabem disso? Quantos se deram ao trabalho de clicar no link, ouvir o áudio até o final e comparar com a (des)informação produzida pelo jornal? E qual o feito que isso poderia ter em meio a um bombardeio de acusações sem defesa? Na cobertura inicial, junto com jornais subversivos, computadores e celulares, a diferença entre uma garrafa de gasolina e um explosivo era principalmente constrangedora.
No meio do que se tenta vender como um “furo de reportagem”, a distância entre o que a matéria descreve e o que o áudio mostra denota a mais pura e consciente desonestidade. O julgamento passa a ser feito pelas páginas dos jornais ou pelo sorriso do William Bonner e o resultado é que tudo que a conquista da democracia, com todos os seus problemas e limites, garantiu, como direito de defesa e presunção de inocência, está sendo diariamente rasgado pelas Organizações Globo, sem que se possa fazer nada.
Versão atualizada do Cidadão Kane
Não faltaram outros artifícios rasteiros, que criam sentido pelo impacto e pela fragmentação. A imagem impactante de um incêndio em que uma pessoa aparece com o braço levantado, aparentemente comemorando, foi repetida mesmo sem que houvesse qualquer relação desse caso e dessa pessoa com os envolvidos e com o conteúdo das matérias; deu-se destaque a uma fala em que a tal Sininho comemora a derrota da seleção brasileira, numa tentativa vulgar de aumentar a rejeição pública a essa moça, que foi alçada a liderança maligna não se sabe do quê nem por quê; ressaltou-se, na mesma fala, a frase em que a “vilã” da vez comenta que a manifestação do jogo da final da Copa vai “bombar”, num lamentável esforço de associar essa gíria ao uso de bombas; e por aí foi.
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Mas não parou. Depois de esgotar todas as combinações possíveis de fragmentação sensacionalista das informações, insinuando sem mostrar e julgando sem provar, o/a Globo reeditou a fórmula que foi amplamente usada no momento seguinte às manifestações de junho do ano passado. Depois da inimiga pública individual, resgataram-se os inimigos públicos coletivos, que também foram artificial e interesseiramente construídos: os sindicatos e partidos políticos. Embora faça questão de dizer que manifestar – pacificamente – não é crime, a doação de comida, transporte e carro de som para manifestantes é mais uma vez tratada como financiamento de atos criminosos em defesa de interesses escusos dos sindicatos envolvidos. Para isso, basta juntar as duas informações – a doação e a ocorrência de algum ato de violência em algum protesto – e produzir uma chamada sensacionalista.
Como é parte do processo de construção ideológica a disseminação de valores que são próprios da ordem burguesa, como o individualismo, a competição e a primazia dos interesses particulares, é fundamental que qualquer manifestação de solidariedade de classe, que é o único recurso de que os trabalhadores dispõem, seja rapidamente transformada em aparelhamento institucional, barganha de interesses ou mesmo formação de quadrilha. É no mínimo curioso que ninguém tenha usado as mesmas lentes “investigativas” para denunciar o apoio financeiro que o ex-governador Sergio Cabral deu, em 2012, para garantir a presença de manifestantes nas ruas contra a distribuição dos royalties do petróleo. Na época, para incentivar a presidente Dilma Rousseff a vetar o projeto que havia sido aprovado no Congresso, e que se argumentava que traria muitos prejuízos ao estado do Rio, não só vários o ônibus foram alugados para trazer pessoas de diferentes cidades do estado como o então governador decretou ponto facultativo para o serviço público. Era dinheiro público financiando manifestação, mas a imprensa não achou que era um problema. Essa é a cara, sem máscara, da liberdade de imprensa burguesa, calcada no modelo profissional do jornalismo burguês.
E não é nova. Diz a lenda que, em 1896, quando um repórter do New York Journal enviado a Cuba para cobrir a guerra hispano-americana informou que estava voltando porque, chegando lá, descobriu que não havia guerra nenhuma, William Hearst, um dos mais famosos empresários da imprensa dos EUA, e que tinha muito interesse no conflito, teria respondido simplesmente: “Não volte. Você enviará as fotos e eu farei a guerra”. Não se sabe se esse diálogo é verídico, mas ele parece perfeito para ilustrar o processo de manipulação explícita que as Organizações Globo estão promovendo na cobertura das prisões políticas que denunciam os limites intransponíveis da democracia burguesa. “Me mande o inquérito que eu produzo as provas”: eis a versão mais atualizada da adaptação brasileira do Cidadão Kane.
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Cátia Guimarães é jornalista

MÍDIA - Latifúndio da Informação.

LATIFÚNDIO DA INFORMAÇÃO

A fonte moderna do poder

Por Laurindo Lalo Leal Filho 
Reproduzido da Revista do Brasil nº 97, julho de 2014, via Carta Maior; título original “Latifúndio da informação, a fonte moderna do poder”, intertítulo do OI
Em aula recente, na Escola de Governo de São Paulo, ilustrei o tema da padronização das informações oferecidas pela mídia com as manchetes idênticas estampadas pelos três jornalões brasileiros (Globo, Estado e Folha) para a fala do ex-presidente Lula no Encontro Nacional de Blogueiros.
De um discurso de mais de uma hora, com análises da conjuntura nacional e internacional, aqueles e outros veículos como Correio Braziliense, O Dia, Exame e o Portal G1 resolveram destacar, de forma truncada, uma referência do ex-presidente à forma do torcedor chegar aos estádios de futebol.
Lembrei que o blogueiro Eduardo Guimarães se fez passar por um cidadão desinformado para constatar, junto a alguns repórteres, qual seria a linha adotada em conjunto para a cobertura do Encontro. O dialogo foi rápido: “Lula é sempre notícia, né?”, comentou Eduardo com um repórter. A resposta: “Notícia cabeluda. Dá um trabalho danado”. “Por quê?” quis saber o blogueiro. “A gente tem que achar a ‘pauta certa’”, informou o jornalista.
Presentes à aula, jornalistas não se contiveram e fizeram questão de deixar claro que não havia nenhuma novidade nisso. Combinar linhas de cobertura, com o cuidado para que os destaques sejam semelhantes, é mais comum do que se imagina. Trata-se da luta em defesa da sobrevivência profissional. Os alunos explicaram: ao darem ênfases iguais a um determinado aspecto do assunto que está sendo coberto, os jornalistas evitam possíveis cobranças ou mesmo punições das chefias. Livram-se de comparações, atendem ao esperado pelos patrões e seguram o emprego.


Lembrei também do coronelismo midiático, um dos mais perversos desdobramentos do coronelismo brasileiro, gestado com a criação da Guarda Nacional, no século 19, ainda na Regência, e presente até hoje em nossa sociedade.
Victor Nunes Leal, no livro Coronelismo, enxada e voto, mostra como os coronéis do império souberam acompanhar a urbanização do pais, mantendo seus latifúndios agrários, mas enviando filhos e genros para se tornarem “doutores” nas cidades, estendendo nelas o poder conquistado na fazenda. Não é por acaso que até hoje os herdeiros gostam de ser chamados do doutores, sem nunca terem defendido uma tese de doutorado. Parte deles controla os latifúndios midiáticos, fonte moderna de poder.
O que distingue um e outro latifúndio não está no seu controle mas na mão de obra utilizada e no produto obtido. A mercadoria gerada no campo esgota-se no seu consumo e a margem de independência do trabalhador na sua realização beira o zero.
No latifúndio midiático o produto permanece vivo no consumidor mesmo depois do seu consumo. Por vezes pelo resto da vida, pois tratam-se de bem simbólicos inculcados em corações e mentes. Essa característica do produto jornalístico sempre deu ao trabalhador da área uma margem de ação própria, inexistente para o trabalhador rural. Na década de 1980 dizia-se que eram brechas a serem ocupadas pelo jornalista comprometido com a verdade e as transformações sociais.
Só que a concentração dos meios de comunicação, o controle ideológico das redações e o estabelecimento pelos latifundiários midiáticos das pautas comuns estreitou ao máximo aquelas brechas equiparando, muitas vezes, as margens de liberdade do jornalista as do trabalhador rural. Ampliou-se também o número e o poder dos capatazes no latifúndio moderno, profissionais bem pagos para não apenas controlar os trabalhadores, mas para dar voz às ideias e posições políticas dos seus patrões.
Apesar desse quadro cada vez mas rígido não notei nos alunos da Escola de Governo sinais de resignação. Ao contrário, mostraram-se conscientes da situação e defenderam a possibilidade de atuar nos resquícios das brechas ainda existentes.
Só o fato de procurarem um curso como aquele para a discussão de temas geralmente desprezados pela grande mídia mostra que, apesar de todo o cerco em torno da prática jornalística, a resistência existe e pode, no futuro, resultar na volta de modelos de informação menos comprometidos com os interesses dos latifundiários, antigos e modernos.

Laurindo Lalo Leal Filho, sociólogo e jornalista, é autor, entre outros, de A TV sob controle – A resposta da sociedade ao poder da televisão

ECONOMIA - Ranking do IHD.

O "déjà-vu" IDH

"O "déjà-vu' IDH" esconde na cortina de poeira do tecnicismo e da conveniência política - que harmoniza e suaviza as variações anuais no ranking do IDH - lições importantes de política pública", afirma Flavio Comim, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e da Universidade de Cambridge e ex-economista sênior do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), em artigo publicado pelo jornal Folha de S.Paulo, 30-07-2014.
Segundo ele, "o Brasil tem feito muito mais pela sua educação do que pela sua saúde. O país incorpora hoje em sua política pública educacional um forte viés de inclusão, de avaliação e de sinergias com o setor privado que não tem paralelo com a política pública de saúde. (...) Enquanto há metas claras para a saúde e educação, não há nada estabelecido para um padrão de vida desejado para os brasileiros".
Eis o artigo.
Avanço discreto. Crescimento modesto. Progresso tímido. Ritmo lento. Os adjetivos podem variar, mas retratam a mesma realidade já vista nos anos anteriores, que sugere que o país está preso a uma "armadilha de estagnação" do seu desenvolvimento.
Como sempre, o governo brasileiro reclama dos dados desatualizados usados no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). Impossível livrar-se de uma forte sensação de "déjà-vu" quando o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) anuncia --outra vez-- que o Brasil subiu apenas uma posição no ranking do IDH.
Em meio à mesmice, a mídia parece estar mais interessada nas divisões internas do PNUD sobre a eficiência do Bolsa Família do que nas informações trazidas pelo IDH deste ano. O "déjà-vu' IDH" parece nos ajudar pouco ou quase nada a entender os desafios de curto prazo e problemas estruturais brasileiros.
A origem desse "déjà-vu' IDH", que nos conta quase a mesma história anualmente, está no tecnicismo que impregnou o modo de interpretar a variação anual do IDH. O que um cidadão comum faria para saber se o país melhorou ou piorou no IDH? Faria uma comparação simples entre o ranking passado e o ranking atual. Mas isso não é o que o PNUD faz.
Primeiro ele atualiza o IDH do ano anterior. Isso gera um "passado revisado". Depois, compara o novo ranking com esse "passado revisado". O resultado disso é que as variações de ranking ficam escondidas entre o passado e o "passado revisado" obliterando informações importantes.
Politicamente, ficam soterradas nessa revisão todas as grandes variações que fizeram do IDH um indicador tão relevante para a política pública. Esse procedimento diminui o risco de dar uma má notícia, mas também esconde as boas, o que é o caso agora.
Retiremos o tecnicismo e veremos que o Brasil subiu esse ano seis posições no ranking do IDH. O governo brasileiro estaria agora celebrando ao invés de lamentando. O Brasil estava na 85º posição no ano passado e está agora na 79º posição.
Por outro lado, se aceitarmos o tecnicismo deixaremos de reconhecer o grande avanço brasileiro na área de educação, principalmente no ganho de um ano na expectativa de vida escolar no Brasil, que chega a 15,2 anos de estudo, dado similar ao de Cingapura ou do Japão, por exemplo.
No ano passado, o Brasil tinha 81,1% da expectativa escolar da Noruega (1º no IDH). Agora, subiu para 86,4%, um aumento anual expressivo. Isso não nega os grandes desafios que o país tem pela frente na melhoria da qualidade e desigualdade da educação. Mas, ao reconhecer esse avanço, mostra como muito mais necessita ser feito na saúde e na economia.
O "déjà-vu' IDH" esconde na cortina de poeira do tecnicismo e da conveniência política - que harmoniza e suaviza as variações anuais no ranking do IDH - lições importantes de política pública. Primeiro, que o Brasil tem feito muito mais pela sua educação do que pela sua saúde. O país incorpora hoje em sua política pública educacional um forte viés de inclusão, de avaliação e de sinergias com o setor privado que não tem paralelo com a política pública de saúde. Segundo, que enquanto há metas claras para a saúde e educação, não há nada estabelecido para um padrão de vida desejado para os brasileiros (a renda nacional bruta per capita do Brasil é apenas 22,3% da renda da Noruega, por exemplo).
Precisamos reconhecer as flutuações nos rankings nominais do IDH para que possamos identificar com maior clareza metas e desafios para o desenvolvimento humano do país. O "déjà-vu' IDH" mais esconde que revela e, portanto, é a antítese da razão de ser do Índice de Desenvolvimento Humano.
Fonte:IHU

EUA - Pentágono pesquisa o controle social.

Pentágono pesquisa o controle social

Um programa de pesquisa do Departamento de Defesa dos EUA – o Pentágono – está financiando universidades para mapear a dinâmica, riscos e pontos críticos de agitação civil em grande escala por todo o mundo, sob a supervisão de várias agências militares norte-americanas. O programa de milhões de dólares é projetado para desenvolver “estratégias relevantes de batalha” a curto e médio prazo para oficiais superiores e responsáveis pelas decisões de uma “comunidade política de defesa”, bem como para informar as políticas implementadas por “comandos de combatente”.
 
Fonte: http://goo.gl/IRmv4A  
A reportagem é de Nafeez Ahmed, originalmente publicada pelo jornal The Guardian e reproduzida por Outras Palavras, 31-07-2014.
Lançada em 2008 – o ano da crise bancária global – a “Iniciativa de Pesquisa Minerva” do Pentágono faz parcerias com as universidades para “melhorar a compreensão básica do Departamento de Defesa a respeito das forças sociais, culturais, comportamentais e políticas que configuram regiões do mundo de importância estratégica para o EUA”.
Entre os projetos premiados para o período 2014-2017 encontra-se um estudo liderado pela Universidade de Cornell e gerido pelo Serviço de Investigação Científica da Força Aérea dos EUA, que tem por objetivo desenvolver um modelo empírico “da dinâmica de mobilização do movimento social e contágios”. O projeto vai determinar “a massa crítica (o ponto de inflexão)” de contágio social, estudando seus “rastros digitais” nos casos da “Revolução Egípcia de 2011, das eleições de Duma na Rússia em 2011, da crise nigeriana de subsídio aos combustíveis de 2012 e 2013 e dos protestos no Parque Gazi na Turquia”.
Postagens no Twitter e conversas serão examinadas “para identificar indivíduos mobilizados por contágio social e quando eles começaram se movimentar”.
Outro projeto premiado este ano na Universidade de Washington “pretende descobrir as condições em que se originam os movimentos sociais que visam a mudança política e econômica em grande escala”, juntamente com as suas “características e consequências”. O projeto, gerido pelo Serviço de Pesquisas do Exército dos EUA, concentra-se em “movimentos em grande escala, envolvendo mais de 1.000 participantes em atividade permanente”, e irá abranger 58 países no total.
No ano passado, a Iniciativa Minerva do Pentágono financiou um projeto para determinar “quem não se torna um terrorista, e por quê?” que, no entanto, confunde ativistas pacíficos com os “partidários da violência política”, diferenciando-os de terroristas apenas na medida em que não embarcam na “militância armada” por si mesma. O projeto aventa estudar explicitamente os ativistas não violentos:
“Em cada contexto, encontramos muitas pessoas que compartilham o mesmo pano de fundo demográfico, familiar, cultural e/ou nível socioeconômico daqueles que decidiram se engajar em terrorismo, mas se abstiveram de assumir a militância armada, mesmo que fossem simpáticos aos objetivos finais de grupos armados. O campo de estudos sobre o terrorismo não tem, até recentemente, lançado olhar para este grupo de controle. Esse projeto não é sobre os terroristas, mas acerca dos apoiadores da violência política”.
Os 14 estudos de caso do projeto “envolvem extensas entrevistas com dez ou mais ativistas e militantes de partidos ou de ONGs que, apesar de simpáticos a causas radicais, escolheram um caminho de não-violência”.
Entrei em contato com a investigadora principal do projeto, Profª. Maria Rasmussen da Pós-graduação da Escola Naval dos EUA, perguntando por que os ativistas não violentos que trabalham para ONGs devem ser equiparados aos partidários da violência política – e quais “os partidos e ONGs” estavam sendo investigados –, mas não recebi resposta.
Da mesma forma, a equipe do programa Minerva se recusou a responder uma série de perguntas semelhantes que lhes fiz, inclusive indagando como “causas radicais” promovidas por ONGs pacíficas podem constituir uma potencial ameaça para a segurança nacional e do interesse do Pentágono.
Entre as minhas questões, eu perguntei:
O Departamento de Defesa dos EUA, vê os movimentos de protesto e ativismo social em diferentes partes do mundo como uma ameaça à segurança nacional dos EUA, e em caso afirmativo, por quê? Será que o Departamento de Defesa dos EUA considera movimentos sociais, com o objetivo de mudança política e econômica em grande escala, como uma questão de segurança nacional, em caso afirmativo, por que? Ativismo, protesto, “movimentos políticos” e, claro, as ONGs, são um elemento vital de uma sociedade civil saudável e democracia – então por que é que o Pentágono está financiando pesquisas para investigar essas questões?
O diretor do programa de Minerva, Dr. Erin Fitzgerald, disse: “Eu aprecio as suas preocupações e estou contente que você estendeu a mão para nos dar a oportunidade de esclarecer”, antes de prometer uma resposta mais detalhada. Em vez disso, recebi a seguinte declaração insossa da assessoria de imprensa do Pentágono:
O Departamento de Defesa leva a sério o seu papel na segurança dos Estados Unidos, seus cidadãos, aliados e parceiros dos EUA. Embora nem todos os desafios de segurança causem conflito, e nem todos os conflitos envolvam os militares dos EUA, o Minerva ajuda a financiar investigação de base das ciências sociais que ajude a ampliar a compreensão do Departamento de Defesa sobre o que causa instabilidade e insegurança em todo o mundo. Através de uma melhor compreensão destes conflitos e suas causas de antemão, o Departamento de Defesa pode se preparar melhor para o dinâmico ambiente de segurança do futuro.
Em 2013, o Minerva financiou um projeto da Universidade de Maryland, em colaboração com o Departamento de Energia do Laboratório Nacional do Noroeste Pacífico dos EUA, para avaliar o risco de distúrbios civis, devido às mudanças climáticas. Nos três anos do projeto, 1,9 milhões de dólares são empregados no desenvolvimento de modelos para prever o que poderia acontecer às sociedades sob uma gama de potenciais cenários de mudanças climáticas.
Desde o início, o programa Minerva foi projetado para oferecer até 75 milhões de dólares em cinco anos para pesquisa em ciências sociais e comportamentais. Só este ano, o Congresso dos EUA atribuiu um orçamento total de 17,8 milhões de dólares ao Minerva.
Uma comunicação por e-mails pessoais internos do Minerva, referenciado em uma dissertação de mestrado 2012, revela que o programa é voltado para a produção de resultados rápidos, que são diretamente aplicáveis às operações de campo. A dissertação foi parte de um projeto financiado pela Minerva sobre “o discurso muçulmano anti-radical radicais” da Universidade Estadual do Arizona.
O e-mail interno do Prof. Steve Corman, o investigador principal do projeto, descreve uma reunião organizada pelo Programa de Modelagem do Comportamento Humano e Social do Pentágono (HSCB, em inglês), em que altos funcionários do Pentágono disseram que sua prioridade era “desenvolver capacidades que se tornam rapidamente disponíveis” na forma de “modelos e ferramentas que podem ser integrados com as operações”.
Embora o supervisor do Escritório de Pesquisa Naval, Dr. Harold Hawkins, tenha assegurado aos pesquisadores da universidade desde o início que o projeto era apenas “um esforço de pesquisa básica, por isso não deve se preocupar em fazer coisas aplicáveis”, a reunião de fato mostrou que Pentágono está à procura de “fomentar resultados” em “aplicações”, disse Corman no email. Ele aconselhou os seus investigadores a “pensar sobre a formatação dos resultados, relatórios, etc, para que eles [Departamento de Defesa] possam ver claramente a sua aplicação para as ferramentas que poderão ser utilizadas em campo”.
Muitos estudiosos independentes criticam o que veem como os esforços do governo dos EUA para militarizar as ciências sociais e colocá-las a serviço da guerra. Em maio de 2008, a Associação Americana de Antropologia (AAA) escreveu para o governo norte-americano notificando que o Pentágono não tem “o tipo de infra-estrutura para a avaliação antropológica [e de outras ciências sociais] de investigação” de uma forma que envolve a “revisão rigorosa, equilibrada e objetiva dos seus pares”, conclamando, assim, para esse tipo de pesquisa venha ser gerida por agências civis como a Fundação Nacional de Ciência (NSF).
No mês seguinte, o Departamento de Defesa assinou um memorando de entendimento (MoU) com a NSF para que esse coopere na gestão da Minerva. Em resposta, o AAA alertou que, apesar das propostas de pesquisa passar a ser agora avaliadas por painéis de revisão por mérito da NSF, “funcionários do Pentágono ainda teriam o poder de decisão para escolher quem fica nos painéis”:
…ainda existem preocupações, na disciplina, de que pesquisa que só serão financiadas quando apoiarem a agenda do Pentágono. Outros críticos do programa, incluindo a Rede de Interesses de Antropólogos, levantaram preocupações de que o programa iria desencorajar a pesquisa em outras áreas importantes, prejudicando o papel da universidade como um lugar para a discussão independente e crítica dos militares.
Segundo o professor David Price, um antropólogo cultural na Universidade de St Martin, em Washington DC e autor de Weaponizing Anthropology: Social Science in Service of the Militarized State [Antropologia Armada: Ciências Sociais a Serviço do Estado militarizado], “quando você olha para as partes específicas de muitos desses projetos, elas parecem normais, ciências sociais, análise textual, pesquisa histórica, e assim por diante. Mas quando você soma estas partes, todas eles compartilharam temas de legibilidade, com todas as distorções oriundas da simplificação excessiva.
O professor Price já havia exposto como o programa de Sistemas de Terreno Humano (HTS) do Pentágono – projetado para incorporar os cientistas sociais em operações militares de campo – rotineiramente conduz cenários de treinamento em regiões “dentro dos Estados Unidos”.
Citando uma crítica resumida do programa enviada para os diretores do HTS por um ex-empregado, Price informou que os cenários de treinamento HTS “adaptaram COIN [contra-insurgência] do Afeganistão e Iraque” para situações domésticas “nos EUA, onde a população local foi vista a partir da perspectiva militar, enquanto ameaça ao equilíbrio estabelecido de poder e a influência, bem como desafiando a lei e a ordem”.
Em um jogo de guerra, disse Price, estavam envolvidos ativistas ambientais protestando contra a poluição de uma usina a carvão perto de Missouri, alguns dos quais eram membros da conhecida ONG ambientalista Sierra Club. Os participantes foram incumbidos de “identificar aqueles que eram ‘solucionadores de problemas’ e aqueles que eram ‘causadores problema’, bem como o resto da população. Esta seria o alvo das operações de informação, voltadas a mover o centro de gravidade dos cidadãos em direção ao conjunto de pontos de vista e valores que era o ‘estágio final desejado’ da estratégia dos militares”.
Tais jogos de guerra estão de acordo com uma série de documentos de planejamento do Pentágono que sugerem que a vigilância em massa da Agência de Segurança Nacional (NSA) é parcialmente motivada para se preparar para o impacto desestabilizador da vinda choques ambientais, energéticos e econômicos.
James Petras, Professor de Sociologia na Universidade de Binghamton, em Nova York, concorda com as preocupações de Price. Os cientistas sociais financiados pela Minerva e vinculados à operações de contra-insurreição do Pentágono, estão envolvidos no “estudo das emoções alimentadas ou reprimidas por movimentos ideologicamente conduzidos”, disse ele, incluindo como “neutralizar movimentos de base”.
Minerva é um excelente exemplo da natureza profundamente tacanha e auto-destrutiva da ideologia militar. Pior ainda, a falta de vontade dos funcionários do Departamento de Defesa para responder às perguntas mais básicas é sintoma de um fato simples. Em sua missão inabalável de defender um sistema global cada vez mais impopular e servir os interesses de uma pequena minoria, as agências de segurança não têm escrúpulos em pintar nós todos como potenciais terroristas.