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sábado, 31 de outubro de 2009

MERCOSUL - O transitório e o duradouro.

Por Mauro Santayana

Prevaleceu o bom senso, e a Comissão de Relações Exteriores do Senado aprovou, ontem, a entrada da Venezuela no Mercosul. Há os que se opõem a esse ingresso e, em passado recente, pretendiam que aderíssemos ao Alca. O Tratado de Livre Comércio das Américas, como o desejavam os norte-americanos, seria, para repetir o guatemalteco Juan Arévalo, a associação entre as sardinhas e o tubarão. A adesão do México ao Nafta representou a desnacionalização da indústria, o aumento da criminalidade, a repercussão dramática da crise econômica norte-americana em seu território. O México perdeu 15% dos empregos existentes em 1994 e, só no ano passado, 6.290 pessoas foram assassinadas na guerra do narcotráfico.

O presidente Chávez tem surpreendido os meios políticos com seu comportamento inusitado. Sua eleição constituiu a quebra de um paradigma. Mas essa quebra de paradigma não ocorreu somente na Venezuela. No mundo inteiro, o eleitorado tem preferido, nos últimos decênios, homens que fogem aos modelos clássicos de chefes de Estado e de governo do século 19 e início do século 20. São homens que não se identificam com o que convencionamos chamar establishment. Esses homens novos, para usar o léxico político romano, não constituem privilégio da esquerda. A direita também os elege, mais do que a esquerda e, talvez, tenha a ela cabido o privilégio de inaugurar o costume, quando fez do caubói Ronald Reagan o presidente dos Estados Unidos em 1980. Quebrou-se, na mesma ocasião, o paradigma na Inglaterra, com a eleição de Mme. Thatcher para ocupar o gabinete de Downing Street, que havia sido, só no século passado, de Lord Balfour e de Lloyd George, de Churchill, Harold Wilson e Bevan. E que dizer de nossos dias, com Berlusconi e Sarkozy? E não nos esqueçamos de Barack Hussein Obama – talvez o que intelectualmente mais se aproxime do modelo clássico dos governantes do passado.

A História registra quebras anteriores de paradigma, mas geralmente localizados e episódicos, como ocorreu com a eleição de Andrew Jackson, nos Estados Unidos de 1828. Quebra de paradigma é também a presença de Lula, no Alvorada. Argumentam, os adversários da inclusão da Venezuela no Mercosul, que o regime, ali, não é democrático. Mas, o que é mesmo democracia? Se os destacados adversários da Venezuela conseguissem defini-la com precisão, resolveriam um dos problemas básicos da ciência política. Em termos pragmáticos – e não acadêmicos – democracia é aquele regime que nos convém, e não democrático aquele que não nos agrada. Há democracias e democracias. Seria, por exemplo, democrático o governo da Itália, cujo primeiro-ministro controla mais da metade do poder de informação no país? Em sua melhor definição, a democracia rejeita adjetivos, e os rejeita porque é um processo – e os processos não admitem qualificações definitivas.

É preciso separar o transitório do duradouro, já que na política, como na vida em geral, não há situações permanentes. O presidente Chávez é um inquilino do Palácio de Miraflores, como outros houve, desde a tumultuada independência da região. Como em todos os países do continente, a história da Venezuela oscila entre o despotismo das oligarquias e a resistência dos pobres. Houve governos que lutaram pela democracia republicana e pela igualdade, como os de Rômulo Bentacourt e Rômulo Gallegos. E ditaduras militares impostas pelos golpes de Estado, como a de Perez Jimenez. E há o clássico exemplo da corrupção insuportável de governos que começaram bem, como ocorreu com Carlos Andrés Perez. Se Chávez e sua forma particular de governo são realidades transitórios, a Venezuela é duradoura. Hoje, a Venezuela é um dos mais importantes parceiros comerciais do Brasil, e, acima dos preconceitos contra o índio Chávez, prevalecem os interesses dos grandes empresários brasileiros, que exportam bens e serviços para aquele país. E, da mesma forma, os nossos objetivos nacionais permanentes.

Requião e o acordo

O governador Roberto Requião disse o que devia dizer. O acordo prévio entre o PMDB e o PT, quanto à Vice-Presidência na chapa de Dilma Rousseff, expressa a vontade da candidata, de Michel Temer e seus próximos. Só a convenção nacional do partido decidirá que posição assumir no pleito do ano que vem. E, embora a candidatura da ministra pareça consolidada no PT, ela só será definitiva depois da convenção de seu partido. Em política, como em tudo na vida, as circunstâncias mudam a cada instante.
JB online

CÃES E GATOS ANTIECOLÓGICOS:consomem como um carro.

Associar a imagem de um cão que sacode o rabo a de um SUV [veículo utilitário esportivo] barulhento e poluidor não é a operação mais imediata que se possa imaginar. Porém, se você tiver o destino do planeta no coração e está pensando em pegar um animal de estimação, talvez deva considerar a sua decisão com a mesma dedicação que dedicaria à aquisição de um novo automóvel: segundo dois especialistas britânicos, criar um cachorro tem um impacto no ambiente igual ou superior ao de um grande veículo motorizado.

A reportagem é de Alessio Balbi, publicada em artigo no jornal La Repubblica, 30-10-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Brenda e Robert Vale trabalham com sustentabilidade ambiental na Victoria University, na Nova Zelândia, e publicaram os seus dados em um livro de título provocativo, "Time to Eat the Dog?". É uma expressão que vem da época das expedições na Antártida e indica o momento em que os exploradores, que ficaram sem provisões, eram obrigados a sacrificar os cães de trenó.

A mensagem dos dois autores, portanto, é: em um momento em que os recursos naturais estão sempre mais escassos, os animais domésticos são um luxo que, pelo bem do planeta, não podemos mais nos permitir.

Segundo os cálculos dos Vale, que se formaram em Cambridge antes de emigrar para a Oceania, a dieta de um cachorro de porte médio prevê o consumo de 164 kg de carne e 95 kg de cereais a cada ano. Para produzir essa quantidade de comida, são necessários 0,84 hectares de terra (1,1 para um pastor alemão). Pois bem, dizem os dois, construir e dirigir um SUV por 10.000 km tem um custo energético de 55,1 gigajoules. Visto que um hectare de terra pode produzir, em um ano, energia igual a 135 gigajoules, o impacto ambiental de um veículo poluidor é a metade do de um cachorro.

No livro, a equação é aplicada também a outros animais domésticos. Descobre-se assim que um gato consome 0,15 hectare de terra, grosso modo, o mesmo que um grande utilitário. Um casal de hamsters, com 0,028 hectares, equivale a um televisor de plasma, enquanto um peixe-palhaço (0,00034 hectares) gasta a mesma energia de dois telefones celulares.

As teorias dos Vale desencadearam um evidente curto-circuito na sensibilidade ambientalista, visto que muitas vezes quem tem um animal em casa é também um amante da natureza. E, de fato, "Time to Eat the Dog?" está no centro de numerosas críticas: há quem defenda que as grandezas usadas não são comparáveis, e quem acuse o texto de conter erros de cálculo grosseiros. Mas outros pesquisadores, como o inglês John Barrett, do Stockholm Environment Institute, entrevistado no último número da revista New Scientist, refizeram os cálculos e confirmaram os resultados.

Então, pelo bem da Terra, adeus à companhia de quatro patas? Para quem já tem um animal doméstico, os autores propõem, ao invés, uma mudança da dieta, sob a marca da tradição: nas casas de campo, cães e gatos tinham um impacto ambiental mínimo, já que compartilhavam, sob a forma de restos, a comida dos homens. Já quem está pensando em ter um animal de estimação, defendem os Vale, deveria limitar a escolha a coelhos ou pintinhos, enfim, animais que restituem a energia que consomem, poi deles se obtém alimento. Uma sugestão que dificilmente será acolhida pelos ambientalistas.
Fonte:IHU

O EXEMPLO DE CELSO FURTADO.

O economista Celso Furtado recusou convites milionários para trabalhar no setor financeiro depois de passar pela vida pública. A afirmação é do historiador Luiz Felipe de Alencastro em introdução na edição comemorativa dos 50 anos do livro Formação Econômica do Brasil. O comentário é de Fernando Barros e Silva em artigo no jornal Folha de S.Paulo, 31-10-2009.

Eis o artigo.

Celso Furtado (1920-2004) escreveu Formação Econômica do Brasil, sua obra mais decisiva e influente, entre novembro de 1957 e fevereiro de 1958. Estava em Cambridge, na Inglaterra, onde permaneceu por um ano. Redigidas à mão cerca de 400 páginas, o economista procurou por semanas quem as datilografasse. Em vão. Decidiu então despachá-las ao Brasil num envelope. A caminho do correio, um amigo o convenceu a microfilmar o manuscrito.

Tempos depois, Furtado constatava que o pacote havia se extraviado. Apreensivo, foi à versão filmada sem saber ainda se era legível. Sim, era. Com uma Olivetti recém-comprada, datilografou, uma a uma, as páginas do livro, aproveitando para tornar o texto mais claro e conciso.

Gato escaldado, decidiu enviar ao Brasil em envelopes separados cada um dos 36 capítulos. Quatro meses depois, trabalho já encerrado, o original foi encontrado num depósito da alfândega do Rio de Janeiro. Considerado material suspeito, estava largado, à espera de inspeção. "Mais do que dos anos de observação e estudo, aprendi com esse episódio o que é o subdesenvolvimento, essa manifestação de idiotice alastrada no organismo social", diria no tomo inicial de sua autobiografia, A Fantasia Organizada.

Essa história é narrada pela jornalista e tradutora Rosa Freire D'Aguiar Furtado, viúva de Celso, na apresentação da edição comemorativa dos 50 anos do livro, recém-lançada pela Cia. das Letras. Na introdução, o historiador Luiz Felipe de Alencastro lembra que Furtado, "pensador, professor, homem de Estado", recusou convites milionários para trabalhar no setor financeiro depois de passar pela vida pública. Idealizador da Sudene e ministro do Planejamento de João Goulart, retornou à sala de aula.

Ex-ministros tucanos que viraram banqueiros e petistas de Estado que hoje atuam como lobistas do capital alheio devem ter tempo de sobra para ler e refletir sobre esse clássico da interpretação do Brasil.
Fonte:IHU

MST- só deverá se engajar na campanha eleitoral no segundo turno.

Aliado histórico do PT, o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), não deverá marchar, formalmente, com o partido já no primeiro turno das eleições presidenciais.

A reportagem é de Catia Seabra e publicada pelo jornal Folha de S.Paulo, 31-10-2009.

Um dos coordenadores do MST, João Pedro Stedile descartou ontem uma adesão automática à candidatura da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) e afirmou que os movimentos sociais só deverão se engajar na campanha eleitoral no segundo turno.

"Não é problema de partido nem de pessoa, é desse debate que nós queremos fugir. Nem porque o Lula pediu para votar na Dilma, então, nós vamos votar. Não somos capacho de ninguém. Queremos discutir qual é o projeto da Dilma", afirmou Stedile, em entrevista ao programa 3 a 1, da TV Brasil.

A previsão reflete uma divisão do MST, já diagnosticada pelo próprio comando do PT. Segundo petistas, parte expressiva do movimento deverá apoiar a candidatura de Marina Silva (PV) à Presidência. O PT, que mantém laços com o movimento, já foi informado da decisão do MST de conversar com Marina nos próximos dias.
Reunidos em assembleia no fim de semana passado, representantes dos movimentos sociais decidiram ainda condicionar o apoio aos compromissos assumidos pelos candidatos.

Segundo Stedile, a intenção dos movimentos é "aproveitar a campanha eleitoral do ano que vem para discutir um projeto para o Brasil". Ele disse que o MST não reduzirá o ritmo de ocupações no período eleitoral. "Ele [o sem-terra] não está nem dando bola para o calendário eleitoral. Quer resolver o problema dele. Em toda região que concentra sem-terra e tem latifúndio, vai continuar ocupação de terra", afirmou.

Segundo petistas, o discurso crítico ao agronegócio leva parte do MST para os braços de Marina. Além disso, Marina poderia herdar os simpatizantes da vereadora Heloísa Helena (PSOL-AL), de quem tem apoio. Mas os métodos do movimento poderiam afugentar fatia de seu eleitorado.

"O PV tem diálogo com a extrema esquerda. Mas há diferenças. O PV não tem simpatia pelo [presidente da Venezuela, Hugo] Chávez, não apoia atos de violência nem tem uma visão antiburguesia", disse o presidente do PV do Rio, Alfredo Sirkis, segundo quem "a diferença não impede o diálogo".

Na entrevista, Stedile chamou de equívoco a destruição de laranjais durante a ocupação da fazenda da Cutrale, em São Paulo. Segundo ele, isso permitiu a execração do MST. "A imprensa burguesa usou as imagens para criar uma ojeriza na opinião pública, como se laranja fosse o fim do mundo", disse.
Fonte:IHU

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

ELEIÇÕES - Eleição de 2010 não mudará hegemonia do agronegócio, bancos e indústria.

“A expansão brasileira, a projeção da economia do país no mercado interno e no mercado externo é monopólio de um grupelho, dos poderosos do agronegócio, das finanças, da grande indústria. A hegemonia é desses grandes potentados”. A afirmação é do sociólogo Luiz Werneck Vianna, do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj) em entrevista à Gilberto Costa e publicada pela Agência Brasil, 29-20-2oo9.

Eis a entrevista.

Qual será a agenda política da campanha eleitoral e dos próximos anos?

O tema do desenvolvimento será uma questão forte. A mobilização do Estado como indutor desse desenvolvimento certamente será discutida por Dilma [Rousseff], [José] Serra e Ciro [Gomes], mas não deverá ser discutida na agenda de Marina [Silva]. Isso não é um tema de Marina. Ela é uma candidatura interessante, pode vir a crescer, provavelmente não terá condições de vitória, mas poderá interferir na agenda dos outros. A sua presença na disputa faz com que já pese mais a questão ambiental. Com ela, o tema da ética na política aparece com mais força e isso deve contaminar também a agenda dos candidatos.

A candidatura de Marina, mesmo que não esteja destinada a cumprir uma trajetória brilhante, irá exercer uma certa influência sobre as demais. Quanto ao Ciro, é difícil falar. Sobretudo é difícil diferenciar o Ciro das candidaturas da Dilma e do Serra. Os três têm o perfil muito semelhante. Serra e Dilma ainda mais semelhante. São executivos, pessoas treinadas na administração, vocacionadas para esse tipo de mando. O território deles não é propriamente o da política e das eleições, como o de Lula é. O presidente é um animal político, assim como Fernando Henrique Cardoso também é. Mas esse não é o caso nem da Dilma nem do Serra, que construíram suas pré-candidaturas como bons administradores. A eleição vai ser uma obra de químicos especializados em campanhas.

Vai ser uma campanha sisuda e menos emocional?

Acho que sim. A entrada da Marina e do Ciro atenua um pouco isso. Só com Serra e Dilma, seria uma coisa muito monocórdica, os mesmos temas, os mesmos discursos, sem mudar a inflexão.

É possível distingui-los ideologicamente com nitidez? O governador José Serra diz estar hoje à esquerda do PT.

O Serra tem uma história na esquerda, sem dúvida: foi presidente da UNE [União Nacional dos Estudantes], foi da Ação Popular, mas depois ele foi estabelecendo aliança com os poderosos de São Paulo, da indústria e das finanças. Como a Dilma será candidata da situação e tem os poderosos também na coalizão governamental , inclusive em posição de mando político como ministros, as diferenças não vão se estabelecer por aí. O esforço todo do presidente Lula vai ser comunicar quem é sua candidata e tentar transferir o seu prestígio eleitoral. Essa não é uma operação fácil de fazer, mas é o que ele irá fazer e pode ter sucesso nisso. Não podemos esquecer que ainda tem uma questão embaraçosa no PSDB: se é Serra ou se é Aécio. Isso ainda não foi definido. Não dá para prever nada. Uma coisa é fazer o retrato, a outra será quando isso entrar em movimento. Quem sabe se o Ciro vai cometer mais um destempero verbal na televisão? Quem sabe se um acidente ambiental não possa tornar a candidatura de Marina mais popular e mais visível? Há tantos imponderáveis nessas lutas.

Teremos, então, a agenda que já está aí.

Sem dúvida. A expansão brasileira, a projeção da economia do país no mercado interno e no mercado externo é monopólio de um grupelho, dos poderosos do agronegócio, das finanças, da grande indústria. Esses é que estão com as cordas. Quando se falava da questão nacional das décadas de 1950 e 1960, se falava da questão do nacional-popular, havia tensão entre o nacional e o popular. Havia luta pela hegemonia na condução da questão nacional. Hoje, a questão nacional está posta sem que o tema da hegemonia seja debatido. A hegemonia é desses grandes potentados. É claro que tudo isso extraordinariamente manobrado de maneira inteligente, ardilosa e sutil pelo presidente Lula, que tem capacidade de empregar todos no mesmo governo, impondo condições. Por exemplo, impõe ao agronegócio a questão ambiental e o convívio com a agricultura familiar. O Lula tem demonstrado uma enorme capacidade de harmonizar contrários e de que a obra desses contrários seja vista como a serviço da nação na sua totalidade. Isso não se faz por muito tempo, nem se consegue criar a ilusão em todos de que aquilo que está sendo feito fundamentalmente para atender alguns esteja atendendo a todos.

O senhor diz que o PT declinou do papel de herói providencial e se adaptou às circunstâncias. Mas há mudanças, como a subida de 30 milhões de pessoas a um novo patamar de consumo, não?

Sem dúvida, e é uma outra questão. De fato, esse governo foi muito dedicado ao enfrentamento da questão social, mas em determinados limites. Essa harmonização entre os contrários, realizada pelo Lula, é obra que não persistirá no tempo, inclusive porque o tempo do Lula acabou e a Dilma não é vocacionada para realizar isso. O meu ponto principal não é esse, mas de que o desenvolvimento e a questão nacional estão sendo pensados de forma tecnocrática, vertical, de modo assimétrico em relação à vontade da sociedade. A sociedade civil está desmobilizada, e os movimentos sociais foram cooptados. Esse é meu ponto. É político, não é uma questão técnica ou de economia. Os movimentos sociais foram todos trazidos para dentro do Estado.

O senhor fala da linha de continuidade entre o governo Lula e FHC e de um “abraço” de Lula em Getúlio Vargas. Com quem o governo atual guarda mais coincidências?

Um pouco de cada coisa. Ele foi trazendo tudo para si. O que eu digo é que o repertório da história brasileira, da tradição da República brasileira, foi sendo selecionado e incorporado pelo governo acriticamente. A questão nacional é importante, mas isoladamente, sem a chave democrática e popular, ela pode ser uma questão perigosa. Ela fortalece um Estado isolado da sociedade, uma burguesia dominante e dominadora, a sociedade conhecendo apenas uma vontade. Esse é que o ponto.;
Fonte:IHU

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

A DIFÍCIL RETIRADA.

Por Mauro Santayana

A escalada da resistência dos talibãs e dos iraquianos demonstra que as guerras não se vencem apenas com a força militar. As guerras são movimentos que exigem das nações o máximo de sua potência moral. Na versão de Salústio, Caio Mário, o grande general plebeu, convoca seus comandados para a guerra contra Jugurta, dizendo-lhes que nenhum homem coloca um filho no mundo com a presunção de que possa ser eterno, mas com a esperança de que venha a ser honrado. De retorno a Roma, ao passar sob os arcos de triunfo, os combatentes eram a própria pátria que se honrava; nela se integravam no instante da glória. Segundo o New York Times, o principal homem da CIA no Afeganistão é Ahmed Wali Karzai, irmão do próprio presidente do país. Ahmed é o maior traficante de ópio do país. E o governo pretende tentar no Afeganistão o que não deu certo no Iraque: comprar os inimigos com dinheiro vivo. Com a corrupção formam governos, com a corrupção os sustentam e os derrubam, quando lhes convém.

Bush disse que ia ao Iraque matar Hussein porque ouvira de Deus essa ordem. Mais tarde confessou indiretamente que a guerra se devia ao vício norte-americano pelo petróleo. Como reza um provérbio persa, mesmo o mais falso dos homens diz uma verdade na vida. Consumindo mais de 12 bilhões de barris de petróleo por dia, seu governo, a serviço dos donos do poder, tem que buscá-lo onde quer que o encontre. É famosa a frase de Kissinger, para justificar a espoliação dos países periféricos: “Os países industrializados não poderão viver, se não tiverem à sua disposição os recursos naturais não renováveis do planeta. Terão que montar sistema de pressões e constrangimentos que garantam os seus objetivos”. Quando essas pressões, constrangimentos políticos e econômicos se frustram, partem para o golpe, os atentados, a guerra.

O presidente Obama está vivendo os piores dias de seu primeiro ano de governo. É evidente a pressão dos militares, exercida pelo general McChrystal, para que Washington envie mais tropas ao Afeganistão. Ocorre que de nada adianta o sangue norte-americano que vem escorrendo no Afeganistão e no Iraque, em troca de petróleo e gás, quando os governantes títeres dos invasores se putrefazem na corrupção e no tráfico de ópio. Depois do atentado de anteontem em Kabul, contra o escritório da ONU, 92 pessoas morreram no mercado de Peshawar, no Paquistão, que estava apinhado. Os Estados Unidos e a Otan não terão tropas para enfrentar essa ampliação do conflito.

É famosa a constatação do irreverente – mas, assim mesmo, grande estadista – que foi Georges Clemenceau: a guerra é uma coisa grave demais para ser confiada aos militares. Sendo uma decisão política, deve ser politicamente conduzida. Obama se vê pressionado pelos democratas, aos quais se unem moderados republicanos, a encontrar uma forma de se retirar da região, mas os falcões recebem sua ração de arenga por parte de Dick Cheney e outros membros do governo anterior. Os Estados Unidos cumpriram um grande destino, em benefício de grande parcela de seu povo. Sendo um país de imigrantes, venceu, com o tempo – e com o sangue – muitos dos preconceitos raciais que o manchavam. Mas terão que buscar o melhor caminho a fim de renunciar à ideia de que são os árbitros e senhores do mundo. O presidente Obama, sob a pressão constante dos que reclamam o avanço da democracia social e dos que a isso se opõem, tenta ganhar algum tempo, e é provável que tema, como temeram alguns de seus predecessores, o fanatismo dos conservadores, sempre alimentado pelos grandes interesses das corporações financeiras, industriais e militares. Cabe-lhe ainda administrar o pânico previsto diante da gripe suína – cuja ameaça cresce com o inverno nórdico – a reação poderosa do complexo farmacêutico-hospitalar contra a ampliação do seguro médico oficial e a crise econômica, que se expressa nos crescentes déficits do Tesouro.

O mito da invencibilidade bélica norte-americana está, mais uma vez, à prova. Ele foi desmentido na Coreia, na Baía dos Porcos, no Vietnã – e até mesmo na Somália. E está sendo desmentido no Iraque e no Afeganistão – com maiores consequências geopolíticas do que no passado. Quanto ao guerreiro Bush, de acordo com o que ele mesmo revelou, anteontem, em público, se compraz em rezar, passear com seu cachorro pelas ruas de Dallas, e, como bom cidadão, recolher as fezes do animal pelo caminho.
Fonte:JB

MÍDIA - Uma lição perdida na Folha.

A Folha de S.Paulo é um exemplo de como ensinamentos decisivos - como os deixados por Cláudio Abramo - podem ser apagados por interesses conjunturais, ódios de classe e jornalismo de campanha. O mergulho na mediocridade parece não ter fim.

Gilson Caroni Filho

Em 14 de agosto de 1987, o jornalismo brasileiro perdeu um de seus profissionais mais íntegros e combativos. Vítima de um infarto fulminante, morreu na manhã de uma sexta-feira o jornalista Cláudio Abramo. Onze dias depois, em editorial na revista Senhor, Mino Carta lhe dedicaria um artigo de rara beleza. Convém destacar um trecho:

"Em patrão, diria Claudio, não convém confiar em demasia. Talvez não pensasse o mesmo dos jornalistas, aos quais tentou ensinar, além do verdadeiro jornalismo, dignidade profissional e consciência de classe. Mas os jornalistas brasileiros não estão atentos às melhores lições. Quase sempre preferem inclinar-se à vontade do dono, diretor por direito divino, em lugar de acompanhar alguns raros colegas dispostos a professar sua fé em um tipo de imprensa que transcende os interesses de uma família e de uma casta."

Abramo esteve no comando do Estado de S.Paulo e da Folha de S.Paulo. No jornal da família Frias foi chefe de reportagem, secretário e diretor de Redação. Sempre se bateu pelo rigor da apuração, pela edição correta, ignorando angulações demarcadas pelos proprietários dos veículos. Seus critérios de escolha nunca colocaram interesses empresarias acima da ética. Não fez concessões ao jornalismo declaratório. Nunca obedeceu aos cânones que estabelecem a primazia da opinião sobre a informação. Foi, sem dúvida, um professor com poucos discípulos. Um iconoclasta que aceitou viver o sacrifício dos que não se alinham incondicionalmente. Um sacerdote a agir como mediador entre o noticiário e o leitor. A expressão exata de uma deontologia que não separa o profissional do cidadão. Pelo contrário, reforça, por ação recíproca, as duas dimensões de quem age a descoberto.

Procedimento curioso
São homens desse porte que fazem a diferença e mostram, pela ausência, uma imprensa que se perdeu de si mesma. Que ignora a relevante função social que deveria desempenhar, vinculando-se ao princípio das responsabilidades mútuas em uma estrutura democrática para melhor revitalizar o espaço público.

A Folha de S.Paulo é exemplo de como ensinamentos decisivos podem ser apagados por interesses conjunturais, ódios de classe e jornalismo de campanha. O mergulho na mediocridade parece não ter fim e, a julgar pelas últimas edições, o patético parece dar o tom de uma Redação onde patrões e jornalistas partilham o mesmo imaginário, não se dando conta que jamais deixarão suas condições de origem. Nem os patrões virarão jornalistas, nem os escribas, por mais que se esforcem, participarão como membros efetivos das famílias para as quais trabalham com afinco.

Mas se a tarefa é desconstruir governos, candidaturas, não há problemas. As folhas do aquário se vergam ao menor sopro, apostando na cumplicidade ou estultice do leitor. Vejamos as façanhas mais recentes dos aguerridos funcionários do diário paulista. Nada resulta de incompetência, mas de cumprir com afinco o papel de oposição terceirizada que lhe foi imposto pelas forças políticas conservadoras.

Na edição de quarta-feira (21/10), tivemos na dobra superior da primeira página a seguinte manchete: "Bolsa de SP prevê queda de negócios pós-taxação". No mesmo dia, o índice Bovespa voltou a subir, e o dólar voltou a se desvalorizar frente ao real. O que esperar de uma Redação comprometida com um mínimo de decência? O mesmo destaque na edição seguinte. Não deu sequer chamada na primeira página de quinta (22/10), apenas uma nota na página B3 (mas sem informar o volume negociado na véspera).

O que mereceu chamada de capa nesse dia? "Beluzzo critica medidas do BC para segurar o câmbio no país". Na verdade, como o texto esclarece, Luiz Gonzaga Beluzzo elogiou a taxação dos capitais especulativos estrangeiros (apenas opinou que as medidas foram tardias e ainda tímidas); mas quem só ler o título terá a impressão diametralmente oposta.

Textualmente:

"O ministro Guido Mantega [Fazenda] usou corretamente o único instrumento do qual dispunha para lidar com o problema, que é o IOF. Medidas adicionais deveriam ter sido tomadas pelo Banco Central."

Isso, voltamos a insistir, não revela despreparo, mas um projeto editorial que requer de todos os envolvidos o exercício de canhestros "editores de opinião".

Desnecessário revelar que a manchete principal da quinta-feira (22) foi para a frase de Lula, cuidadosamente pinçada em sua longa entrevista ao jornal como a mais "polêmica", matéria-prima para a enxurrada de cartas indignadas de cristãos, cristãos novos e agnósticos. Do ponto de vista ecumênico um procedimento curioso. Como técnica jornalística, uma opção rasteira, lamentável e autofágica.

Vegetação rasteira
Na verdade, a Folha não chegou ao fundo do poço somente na semana passada. Na anterior, havia requentado uma farsa: o suposto encontro que Lina Vieira teve com a ministra Dilma, em que a petista teria pedido para acelerar a investigação contra as empresas da família Sarney.

Há cerca de dois meses, Lina tinha "lembrado" (mas sem apresentar provas) que a alegada reunião a sós com Dilma Rousseff teria ocorrido em 19 de dezembro de 2008 (quando a ex-secretária estava em Natal e ministra, no Rio). Agora, a tal agenda teria sido encontrada (mas não mostrada), indicando data bem diversa: 9 de outubro de 2008, dia em que o próprio Planalto já havia confirmado a presença de Lina em suas dependências.

Uma discrepância de mais de dois meses tira do "relato" original de Lina Vieira, e de suas posteriores alegações, qualquer credibilidade. É inverossímil que, em agosto último, alguém em pleno gozo, supõe-se, das faculdades mentais confundisse dezembro e outubro anteriores. E desmascara mais ainda a leviandade da nova musa da oposição, ao aventar (estimulada pela reportagem?) que a suposta interferência da ministra estaria ligada à eleição de José Sarney para a presidência do Senado – assunto que, um ano atrás, sequer estava em cogitação.

Mas nada disso açula o animus investigandi jornalistas da Folha, clara e entusiasticamente empenhada em "fazer escada" para ex-secretária da Receita Federal. Resta saber o que fará esse jornal se o Planalto provar documentalmente que, em 9 de outubro de 2008, Lina Vieira esteve na presença da ministra Dilma Rousseff juntamente com outras pessoas – e que, portanto, o tal encontro a sós não ocorreu. Dará primeira página? Noticiará o que seja?

O "delenda Dilma" da casa está a cada dia mais pelúcido. Mas não somos tão tolos como pode parecer. Começamos a ler a Folha nos tempos de Cláudio Abramo. Aquele que ensinava o bom jornalismo. Bem diferente da vegetação rasteira que prevalece nas páginas do jornal atualmente.

Artigo publicado originalmente no Observatório da Imprensa

Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil
Fonte:Agência Carta Maior.

RECADO DE LULA A "ESSA GENTE ARROGANTE": DISCRIMINAÇÃO NÃO.

Os catadores de papel "estão ensinando a essa gente pedante, arrogante, que o ser humano não pode ser discriminado pela sua profissão", afirmou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nesta quinta-feira (29), em São Paulo. Lula fez um emocionado improviso na 1ª Expocatadores, que reúne catadores de papel e material reciclável do Brasil e até de outros países, com suas cooperativas.

Lula se emociona com a placa presenteada pelos catadores
O presidente da República não o disse, mas falou como o trabalhador que mais tem sido alvo de manifestações de discriminação e preconceito social. Ele bateu duro em "uma parte da sociedade que não tinha vergonha de passar de carro e jogar um lixo qualquer, achando que vocês eram de segunda categoria e que vocês tinham a obrigação de catar o lixo deles".

"Vocês estão fazendo hoje muito mais do que catar material. Vocês estão ensinando a essa gente pedante, a essa gente arrogante, que o ser humano não pode ser discriminado pela sua profissão, ou pelo trabalho que faz. Essa é a conquista maior de vocês", disse Lula. Ele relatou várias histórias de sucesso e amor à profissão, na categoria que cresceu com a urbanização e a demanda de coleta reciclável de materiais.

Formador de opinião pública já era

O discurso presidencial também tratou de outra ferida exposta da elite dominante: o crepúsculo do estamento dos "formadores de opinião", hoje atropelado pela revolução comunicacional e a afluência das camadas da base da pirâmide social.

"A figura do chamado formador de opinião pública, que antes decidia as coisas neste país, já não decide mais. É porque este povo já não quer mais intermediário, este povo tem pensamento próprio, este povo anda pelas suas pernas, trabalha pelos seus braços, enxerga pelos seus olhos e fala pela sua boca. E o que é mais importante, este povo, gente, adquiriu o gosto, o gosto de uma palavra chamada cidadania. Este povo aprendeu a andar de cabeça erguida, este povo aprendeu a ser dono do seu nariz", afirmou o presidente.

Lula destacou "o impulso que a atividade dos catadores recebeu nos últimos cinco anos, sobretudo, por conta da visibilidade da categoria, propiciada pelas políticas de apoio de 13 ministros, do Banco do Brasil, da Caixa Econômica e do BNDES". Anunciou créditos num total de R$ 225 milhões para as cooperativas de catadores. E apresentou até um triciclo elétrico, projetado pela Itaipu Binacional e com guincho para cargas pesadas, que as cooperativas venderão aos catadores.

Jornalistas, "façam a matéria da vida de vocês"

Atento aos movimentos próprios do capitalismo, o presidente fez um apelo aos prefeitos – como o paulistano, Gilberto Kassab, presente no evento: "Agora que a coisa começou a dar lucro, pode começar a aparecer algumas empresas querendo se apoderar da reciclagem, e as pessoas que até agora trabalharam na reciclagem podem ser jogadas para fora, para atender aos interesses de um grande empresário. Eu queria pedir a todos os prefeitos: é muito melhor a gente ter muitos ganhando pouco do que ter apenas um ganhando muito."

Lula expôs sua emoção também em um pouco usual apelo aos "companheiros jornalistas" que cobriram o evento: "Vocês têm a oportunidade de fazer a matéria da vida de vocês. Se vocês esquecerem a pauta do editor de vocês e se embrenharem no meio desta gente, escolher um, qualquer um, para vocês conversarem sobre a vida deles. Não tem importância que eles falem bem do governo ou falem mal do governo. Publique apenas o que eles falarem, não tentem interpretar. E vocês vão perceber que vocês poderão fazer a grande matéria da vida de vocês."

Da redação, com Presidência da República

REFLEXÕES DE UM EX-VIRA-LATA.

A cotação do Brasil está muito alta; como economia, como ator na cena internacional, como nação cultural.

Por Paulo Nogueira Batista Jr.*

Antonio Patriota, até recentemente embaixador brasileiro aqui em Washington, reclamou comigo: "Para de falar em complexo de vira-lata! O Brasil passou dessa fase". Talvez o nosso embaixador tenha razão. O Brasil vem ganhando autoconfiança com uma rapidez surpreendente.

Nas recentes reuniões do G20, em Londres e Pittsburgh, e na última reunião anual do FMI, em Istambul, o Brasil bateu um bolão. Somos subdesenvolvidos? Sim. Temos equipes pequenas? Sim, muito menores do que as dos países desenvolvidos. E, no entanto, as delegações brasileiras têm sido das mais atuantes e -correndo o risco de soar presunçoso- acrescento: das mais influentes.

A aliança Bric (Brasil, China, Índia e Rússia) vem sendo fundamental. Mas não é só isso. O Brasil, em si mesmo, tem tido um papel cada vez maior. Há um fator que nos ajuda enormemente: a imagem favorável do país no exterior. A cotação do Brasil está muito alta. Do Brasil como economia, do Brasil como ator na cena internacional, do Brasil como nação cultural.

Bem sei, leitor, que o brasileiro está longe de compartilhar uma visão tão positiva. Talvez porque esteja mais perto do Brasil e conheça melhor as nossas mazelas. Talvez porque o complexo de vira-lata ainda esteja mais vivo do que imagina o embaixador Patriota.

Faço ainda outra ressalva: existe provavelmente um certo economicismo na forma como os países são vistos internacionalmente. O chamado mercado (um dos codinomes da turma da bufunfa) só se interessa pelos indicadores econômicos e financeiros. Não quer nem saber da péssima distribuição de renda, dos problemas sociais, dos níveis ainda elevados de pobreza e de miséria.

Ora, os indicadores econômicos brasileiros têm ficado, em geral, acima do esperado. Até 2007-2008, os nossos detratores (quase sempre brasileiros) diziam: "O Brasil está navegando uma onda internacional favorável".

Veio então a maior crise internacional desde a Grande Depressão. A torcida adversária (brasileira, em geral) começou a salivar intensamente, aguardando o colapso. Não aconteceu. O Brasil sofreu os efeitos da crise, claro. Mas menos do que se esperava. A recuperação brasileira também começou mais cedo do que o previsto. Basta dizer uma coisa: no meio dessa crise mundial, o Brasil anunciou um empréstimo de US$ 10 bilhões ao FMI.

O meu complexo de vira-lata deu arrancos triunfais de cachorro atropelado (para combinar dois bordões do Nelson Rodrigues em uma única frase). Quis o destino ou o acaso que coubesse a mim, logo a mim -devedor nato, hereditário e até inadimplente-, ser o diretor-executivo pelo Brasil no Fundo exatamente nessa conjuntura. Qualquer um dos meus antecessores -Alexandre Kafka, Murilo Portugal ou Eduardo Loyo- desempenharia o papel de credor com mais categoria e convicção.

Só tenho uma coisa a dizer em meu favor: apesar de credor neófito, acho que preservo uma identificação autêntica com os devedores do FMI. Sei o que significa ser devedor dessa instituição e, dentro do que posso, empresto a minha voz aos países em crise, especialmente os pequenos e oprimidos (mesmo aos brancos de olhos azuis). Foi o que tentei fazer pela Islândia, por exemplo, que passou ontem pela Diretoria-Executiva do FMI.

Dizem que os mulatos podem ser os piores racistas. Que os cristãos-novos são os mais fervorosos. Que um credor neófito pode ser o mais linha-dura. Vamos tentar desmentir esses ditados.

*Diretor-executivo no FMI, onde representa um grupo de nove países (Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Haiti, Panamá, República Dominicana, Suriname e Trinidad e Tobago), mas expressa seus pontos de vista em caráter pessoal.

Fonte: jornal Folha de S. Paulo

CUBA - Juanita e o passado sinistro do Itamaraty

Argemiro Ferreira

Há uma particularidade insólita sobre nosso ministério das Relações Exteriores, o velho Itamaraty. Sempre desfrutou de boa imagem, menos por merecê-la do que pela prática nefasta, talvez de muitos anos, de varrer sujeiras para debaixo do tapete. Atravessou, por exemplo, todo o período da ditadura militar como se vivéssemos no melhor dos mundos, enquanto perseguia diplomatas – intelectuais como Antonio Houaiss, Vinícius de Morais, João Cabral de Melo Neto entre eles. E prestou-se a papéis indignos mesmo antes do golpe de 1964.

Vale a pena lembrar tais coisas embora neste momento o Itamaraty, com o ministro Celso Amorim à frente, conduza com sucesso uma política externa exemplar. O que sugere revisitar a questão é a iniciativa de uma cubana de Miami, 76 anos de idade, notória pelo detalhe de ser irmã de Fidel e Raul Castro,Castro_Juanita_MisHermanos_ de revelar num prolixo livro de memórias (Fidel y Raúl, Mis Hermanos – La Historia Secreta, 432 páginas – capa ao lado), ter sido agente da CIA, central de espionagem dos EUA, graças à diplomacia brasileira.

Juanita Castro (foto acima) não fez a revelação nesses termos, mas o que escreveu (ou o que escreveu para ela a co-autora mexicana Maria Antonieta Collins, especialista em livros de auto-ajuda que ensinam dietas, receitas, como lidar com ex-maridos, livrar-se do vício do cartão de crédito, etc) permite chegar a tal conclusão (saiba mais AQUI e AQUI). Sem atribuir explicitiamente a carreira de espiã à nossa diplomacia, ela diz ter sido recrutada para a atividade pouco nobre através da mulher do embaixador Vasco Leitão da Cunha, que então servia em Havana.
O péssimo exemplo da embaixatriz

É conveniente esclarecer que, entre outras coisas, agora Juanita se diz traída duas vezes – uma pelo irmão Fidel, a outra pela CIA e os EUA. No primeiro caso, a gente entende: como governante Fidel optou por cuidar dos problemas do país, não dos interesses da família. Quanto ao país que a recebeu, queixou-se de que a CIA no governo do presidente Nixon, eleito em 1968, pediu a ela para mudar o discurso e sustar os ataques a Cuba e Fidel – ou seja, dizer o contrário do que dizia até então.

vasco_leitao_da_cunhaMas voltemos à diplomacia. Como chefe da missão do Brasil, o embaixador Leitão da Cunha (foto à esquerda) recebera Juanita como asilada em 1958, ainda no governo JK. Ela alegara correr risco por ser irmã de Fidel, então líder dos guerrilheiros que lutavam contra o ditador Fulgencio Batista. Vitoriosa a revolução no primeiro dia de 1959, ela deixou a embaixada. E em 1961, depois do fracasso (em abril) da invasão da CIA (na baía dos Porcos) a embaixatriz Virginia Leitão, ciente da atividade dela contra o governo revolucionário do irmão, chamou-a para uma conversa. E sugeriu que passasse a colaborar “com uns amigos que conhecem seu trabalho (contra o governo) e querem ajudá-la”.

De acordo com a versão, Virginia encarregou-se de promover o encontro de Juanita com um dos “amigos”, Tony Sforza, então usando o codinome “Enrique”, depois de ter atuado um tempo sob o disfarce de jogador e frequentador de cassinos, com o codinome “Frank Stevens”. Logo depois Juanita passava a operar como agente da CIA em território cubano, com o codinome “Donna”. A se acreditar no livro, durante quase três anos (até 1964, quando foi para os EUA), ela “protegia”, inclusive escondendo em sua casa, críticos e opositores da revolução.
Relações promíscuas de diplomatasInsidetheCompany_PhilipAgee

Daí em diante Juanita foi usada permanentemente pela CIA como arma de propaganda. A ligação dela com a espionagem americana não era segredo. Já em 1975, no seu livro Inside the Company – CIA Diary (capa ao lado), o ex-espião Philip Agee, citou-a como “agente de propaganda da CIA”. E num livro póstumo de 2005, Spymaster – My Life in the CIA, o célebre Ted Schackley, controvertido ex-chefe de operações da agência, revelou publicamente, pela primeira vez, que o contato da CIA com Juanita Castro tinha sido feito através da embaixatriz brasileira Virginia Leitão da Cunha (veja a capa abaixo, à esquerda).

Difícil é entender porque o fato ainda era ocultado no Brasil e porque não se tenta saber mais sobre as relações promíscuas de diplomatas e gente direta ou indiretamente ligada ao Itamaraty, dentro e fora do país?TedShackley_Spymaster O mesmo livro que fizera (em 1975) a primeira referência à relação de Juanita com a CIA também registrara que no Uruguai, na década de 1960, o embaixador brasileiro Pio Corrêa atuara como espião da CIA.

Mas só em julho de 2007, graças a série de reportagens do Correio Braziliense durante quatro dias seguidos, o país soube a extensão do papel de Corrêa (leia AQUI, na página do Itamaraty, parte da série). Depois de passar pelo Uruguai e pela Argentina ele foi premiado com a secretaria geral do Itamaraty e usou o cargo – e os superpoderes recebidos no governo Castello Branco – para criar insólita máquina de espionagem no ministério, com alcance mundial. Um certo Centro de Informações do Exterior (CIEX) dedicava-se a monitorar em toda parte, com a ajuda de nossos diplomatas, os exilados brasileiros e críticos do regime militar.
D. Hélder e a espionagem de Pio Corrêa

Por alguma razão desconhecida a grande mídia do resto do país, cúmplice do golpe de 1964 e beneficiária da ditadura durante 20 anos, preferiu praticamente ignorar o conteúdo daquelas reportagens. Mas um dos efeitos conspícuos da ação do CIEX pode ter sido a campanha mundial orquestrada pela diplomacia brasileira para impedir a concessão do prêmio Nobel da Paz ao arcebispo Hélder Câmara, que denunciava torturas e abusos contra os direitos humanos no Brasil (saiba mais AQUI). A maquinação torpe devia ser hoje motivo de estudo e repúdio na formação dos futuros diplomatas.

PioCorrea_2Mas os segredos do Itamaraty, ao contrário, parecem intocáveis. No seu livro de memórias, O mundo em que vivi (capa ao lado) o próprio Pio Corrêa (foto abaixo, à direita), ao negar perseguição a Vinícius de Moraes (que se desligou, alega ele, num acordo amistoso) vangloriou-se de ter demitido “pederastas”, “vagabundos” e “bêbados”. Houaiss e João Cabral já eram perseguidos antes da ditadura, como alvos de campanha macarthista liderada, ainda no início da guerra fria, pela Tribuna da Imprensa ao tempo de Carlos Lacerda, que os denunciava como subversivos em manchetes de primeira página (mais sobre esse período AQUI).

Corrêa_PioSeria no mínimo saudável arejar esse passado recente e não perpetuar o sigilo. O Itamaraty foi suspeito antes de ocultar seus erros e ainda os gastos elevados, como se fosse uma caixa preta. O fato de alguém como Virginia Leitão da Cunha – cujo marido ocupou altos cargos, foi até ministro do Exterior da ditadura – ter atuado como espiã a serviço de potência estrangeira, dentro da embaixada brasileira, e recrutado agente para serviço de espionagem de outro país, é vergonha que tem de ser exposta à execração pública, para o exemplo nunca ser seguido. E se deixar de ser feita coisa parecida em relação aos Pio Corrêa da vida, a impunidade funcionará como estímulo no futuro ao mesmo comportamento deprimente – que revela subserviência e rebaixa a qualidade de nossa diplomacia.

CÂMARA ABSOLVE DEPUTADO QUE XINGOU LULA E DILMA.

Com um relator desses só podia acontecer isso.Absolver um desqualificado, ídolo dos torturadores.

Corregedoria arquiva oito denúncias contra Jair Bolsonaro (PP-RJ), que chamou presidente de “homossexual” e ministra de “assaltante”, e tripudiou busca por mortos na Guerrilha do Araguaia

ABr e PSDB
Maria do Rosário, Lula, FHC e Dilma são alguns dos alvos da artilharia pesada de Bolsonaro

Lúcio Lambranho

A Mesa Diretora da Câmara arquivou de uma só vez oito representações contra o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), acusado de dar declarações "violentas de ódio e desrespeito" em pronunciamentos na Casa, entre 2004 e 2005. O deputado foi denunciado por, entre outras coisas, chamar o presidente Lula de “homossexual” e a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, de “especialista em assalto e furto”.

O parecer que recomendou o arquivamento das representações, incluindo as declarações contra Lula e Dilma, é do corregedor da Casa, Antonio Carlos Magalhães Neto (DEM-BA). O corregedor sugeriu que o parlamentar fosse apenas “alertado" de que, em caso de reincidência, poderá responder a processo por quebra de decoro parlamentar.

O deputado do PP também escapou de punição por ter afixado um cartaz em seu gabinete em que tripudia as buscas do governo federal por corpos dos desaparecidos na Guerrilha do Araguaia. Na legislatura passada, a Casa havia arquivado uma representação contra ele após uma briga com a deputada Mario do Rosário (PT-RS), que por pouco não terminou em agressão física.

Jair Bolsonaro é um sobrevivente na Câmara. Em seu quinto mandato consecutivo na Casa, o deputado recebeu seis punições por causa de pronunciamentos agressivos e entrevistas polêmicas. Foram três censuras verbais e duas por escrito. Em todos os casos, escapou da abertura de processo de cassação do mandato. "Com que moral vão me cassar aqui?", provoca (leia mais).

Veja outras declarações polêmicas do deputado

Fuzilamento

No governo Fernando Henrique Cardoso, a Câmara foi menos complacente com o parlamentar fluminense. Em programa exibido pela TV Bandeirantes em 2000, o deputado sugeriu o fechamento do Congresso. E, para espanto dos entrevistadores, afirmou que durante a ditadura militar deveriam ter sido fuzilados "uns 30 mil corruptos, a começar pelo presidente Fernando Henrique Cardoso".

Por pregar o fuzilamento do então presidente da República, a Mesa Diretora decidiu, em fevereiro daquele ano, suspender o mandato do deputado por 30 dias. Capitão e paraquedista do Exército, Bolsonaro é o único parlamentar a defender abertamente a ditadura militar.

Autor do relatório que rejeitou em bloco as novas denúncias contra o colega, ACM Neto nega que tenha agido de forma política ao absolver Bolsonaro. "Decidi pelo arquivamento, pois os fatos são antigos e os deputados que me antecederam na Corregedoria não tinham sequer notificado o deputado", disse o corregedor ao site.

"Verifico que os acontecimentos que ensejaram a representação encontram-se superados", diz o parlamentar baiano em seu relatório, aprovado pela Mesa Diretora no último dia 22 de setembro.

“Homossexual”

O presidente Lula e a ministra Dilma Rousseff entraram na mira de tiro da metralhadora verbal de Bolsonaro em 23 de junho de 2005, durante pronunciamento feito na Câmara. "Cumprimento o presidente Lula por ter nomeado para a Casa Civil uma pessoa técnica, especialista em assalto e furto", disse Bolsonaro, ao se referir à nomeação da ministra-chefe da Casa Civil.

No mesmo discurso, o deputado chamou o presidente de “homossexual”. "Se a corrupção existe nesta Casa, quem a pratica, o homossexual ativo, é o presidente Lula. Temos de começar um movimento para desbancar o presidente da República. Não queremos homossexual passivo, nem ativo, neste governo", afirmou.

As frases homofóbicas levaram o Grupo Dignidade - pela Cidadania de Gays Lésbicas e Transgêneros a representar o deputado. A representação foi encabeçada ainda pela deputada Perpétua Almeida (PCdoB-AC) e pela então deputada Teresinha Fernandes (PT-MA).

“Piores que baratas”

Outros aliados do presidente Lula – sobretudo aqueles que se envolveram na luta armada durante a ditadura militar – também foram vítimas da artilharia de Bolsonaro.

O deputado José Genoino (PT-SP), ex-preso político e militante da Guerrilha do Araguaia, foi tratado pelo parlamentar fluminense como "delator de colegas". O ex-deputado Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP) foi chamado de "portador de Lesão por Esforço Repetitivo por contar dinheiro obtido em indenizações milionárias à conta da viúva.”

Já o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu foi retratado como "terrorista, precursor de Bin Laden e especialista em tortura, sequestro e carro-bomba". Quando comandava o Ministério da Justiça, o advogado Márcio Thomas Bastos foi apontado por ele como "defensor de marginais de alta periculosidade".

Aos petistas, Bolsonaro disse que eram "piores do que baratas", e a ministra Dilma Rousseff aparece novamente no discurso como "integrante de quadrilha que assaltou uma casa, sendo especialista em roubo e assalto".

Confusão no Exército

O histórico de indisciplina do deputado remonta aos tempos da caserna. Quando era capitão de arma da artilharia do Exército, Jair Bolsonaro foi preso disciplinarmente por 15 dias após liderar manifestação contra os baixos soldos (salários) dos militares em 1986. O caso teve desdobramento: no ano seguinte, ele foi acusado pelo então ministro do Exército, Leônidas Pires Gonçalves, de indignidade para o oficialato.

Bolsonaro acabou sendo absolvido, em 1988, pelo Superior Tribunal Militar (STM) por nove votos a quatro. Naquele mesmo ano, entrou para a vida política ao se eleger um dos vereadores mais votados da cidade do Rio de Janeiro.

“Ditadura de merda”

As divergências do capitão do Exército com o comando militar continuam. Na porta de seu gabinete, o deputado do PP afixou recentemente um cartaz ironizando a procura dos restos mortais dos militantes de esquerda desaparecidos durante a Guerrilha do Araguaia. O cartaz dizia: “Desaparecidos da Guerrilha do Araguaia: quem procura osso é cachorro”.

"Coloquei cartaz mesmo, pois estão usando dinheiro público para coisas inúteis. Não sei por que eles estão reclamando. Essa ditadura foi uma ditadura de merda, pois sumiram só 300 pessoas; e em Cuba, na ditadura do Fidel, foram 17 mil mortos", dispara Bolsonaro.

Por causa do cartaz, o PCdoB ingressou na Câmara com pedido de instauração de processo ético-disciplinar contra o deputado. ACM Neto também arquivou essa representação e pediu apenas que o cartaz fosse retirado da porta do gabinete de Bolsonaro.
Fonte:Congresso em Foco.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

AGROTÓXICOS NO SEU ESTÔMAGO.

João Pedro Stedile *

Adital

Os ricos sabem do que estamos falando e tratam de consumir apenas produtos orgânicos. E você precisa decidir-se. De que lado está?

Os porta-vozes da grande propriedade e das empresas transnacionais estão muito bem pagos para poder defender, falar e escrever todos os dias que no Brasil já não existe mais problemas agrários. Por fim, a grande propriedade está produzindo muito mais e tendo mais benefícios. Portanto, o latifúndio já não é um problema para a sociedade brasileira. Será verdade?

Tampouco vou abordar o tema da injustiça social da concentração da propriedade da terra, que faz com que apenas 2%, ou seja, 50.000 latifundiários sejam donos da metade de toda nossa natureza, enquanto que temos 4 milhões de famílias sem direito a ela.

Falarei das consequências para você que habita na cidade da adoção do modelo agrícola do agronegócio. O agronegócio é a produção em grande escala, em monocultivos, empregando muitos agrotóxicos e maquinaria. Usam venenos para eliminar as outras plantas e não contratar mão de obra. Com isso, destroem a biodiversidade; alteram o clima e expulsam cada vez mais famílias de trabalhadores rurais de suas terras.

Na colheita passada, as empresas transnacionais, e são poucas (Basf, Bayer, Monsanto, DuPont. Sygenta, Bunge, Shell química...), celebraram porque o Brasil se tornou o maior consumidor mundial de venenos agrícolas. Foram vertidos 173 milhões de toneladas! Uma média de 3.700 quilos por cada brasileiro. Esses venenos são de origem química e permanecem na natureza. Degradam o solo. Contaminam as águas. E, sobretudo, acumulam-se nos alimentos. Os cultivos que mais usam venenos são: a cana de açúcar, a soja, o arroz, o milho, o tabaco, o tomate, a batata, a uva, as cerejas e as hortaliças. Tudo isso deixará resíduos em seu estômago. E em seu organismo afetam as células e, um dia, poderão transformar-se em câncer.

Perguntem aos cientistas de nosso Instituto Nacional do Câncer, centro de referência da investigação nacional, qual é a principal origem do câncer, depois do tabaco?

A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) denunciou que existem no mercado mais de vinte produtos agrícolas não recomendáveis para a saúde humana. Porém, ninguém coloca um aviso nos rótulos dos alimentos, nem os retira das prateleiras. Antigamente, era permitido que a soja e o óleo de soja tivessem apenas 0,2mg/kg de resíduos do veneno glifosato para não causar problemas de saúde. De repente, a Anvisa autorizou que os produtos derivados da soja pudessem ter até 10,0mg/kg de glifosato: 50 vezes mais. Isso aconteceu certamente por pressão da Monsanto, pois o resíduo do glifosato aumentou com a soja transgênica, de sua propriedade.

Isso mesmo está acontecendo agora com os derivados do milho. Depois que foi aprovado o cultivo de milho transgênico, o que aumenta o uso de venenos, querem ampliar a possibilidade de resíduos de 0,1mg/kg (permitido atualmente), para 1,0mg/kg.

Existem muitos outros exemplos das consequências dos agrotóxicos. O doutor Vanderley Pignati, pesquisador da UFMT (Universidade Federal do mato Grosso), revelou em suas pesquisas que nos municípios onde há grande produção de soja, devido ao uso intensivo de venenos, os índices de abortos e malformações de fetos são quatro vezes maiores do que a média do Estado.

Nós temos defendido que é preciso valorizar a agricultura familiar, camponesa; que essa é a única que pode produzir sem venenos e de maneira diversificada. O agronegócio, para ter escala e obter grandes benefícios, somente consegue produzir com venenos e expulsando aos trabalhadores para as cidades.

E você paga a conta com o aumento do êxodo rural, das favelas e com o aumento da incidência do veneno em seus alimentos.

Por isso, defender a agricultura familiar e a reforma agrária, que é uma forma de produzir alimentos saudáveis, é uma questão nacional, de toda a sociedade. Não é mais um problema dos sem terra. E é por isso que cada vez mais o MST e a Via Campesina se mobilizam contra o agronegócio e contra as empresas transnacionais; é por isso que seus veículos de comunicação e seus deputados e senadores nos atacam tanto. Porque estão em disputa dois modelos de produção. Está em disputa a que interesses a produção agrícola deve atender: somente o benefício ou a saúde e o bem estar da população?

Os ricos sabem do que estamos falando e tratam de consumir somente produtos orgânicos. E você precisa decidir-se. De que lado está?

LULA IRÁ A LONDRES RECEBER PRÊMIO POR CONTRIBUIÇÃO À AMÉRICA LATINA.

Prêmio destaca "notável trajetória pessoal" do presidente

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva viajará na próxima quarta-feira a Londres, onde receberá um prêmio do Instituto Real de Assuntos Internacionais por sua contribuição à América Latina, informaram hoje fontes oficiais.
O Prêmio Chatham House 2009 será entregue a Lula na quinta-feira da próxima semana durante uma cerimônia para a qual foram convidadas autoridades do governo britânico, disseram à Agência Efe porta-vozes da Presidência brasileira.

Segundo o instituto, o prêmio reconhece a contribuição de Lula à melhora das relações exteriores, à estabilidade e à integração da América Latina, e sua liderança na resolução de crises regionais, assim como também sua "notável trajetória pessoal".

Durante sua estadia em Londres, onde permanecerá até sexta-feira, Lula deve se reunir com a rainha Elizabeth II, da Inglaterra, e com o primeiro-ministro do Reino Unido, Gordon Brown.

PORQUE NÓS, BRASILEIROS, SOMOS TODOS BOLIVIANOS.

Blog do Sakamoto, por Leonardo Sakamoto

A frase não está errada, meu bisavô é realmente alemão, pai da minha avó italiana que se casou com um grego e teve a minha mãe. O Sakamoto, portanto, é por parte de pai. Felizmente, tive a oportunidade de ser de um lugar e de muitos ao mesmo tempo. Coisas que só um país como o Brasil possibilita. Bem, até agora.

Não faz muito tempo, em um domingo qualquer, vi um grupo de pessoas ridicularizando imigrantes bolivianos que vivem no centro de São Paulo. Jovens, todos brancos, alguns de olhos claros. Índios, portanto não eram. E, dessa forma, desprezavam aquilo que um dia seus pais também já foram: estrangeiros recém-chegados, tentando a sorte.

Não vou aprofundar a discussão com as origens da xenofobia, a relação entre estabelecidos e outsiders, o entendimento da alteridade… enfim. Afinal isto é um post, não uma missa. Mas é ridículo que pessoas da mesma classe média que reclama de ser barrada nos aeroportos aqui na Europa reserve um tratamento preconceituoso como esse aos que vem de fora. Prova de que o ser humano não aprende.

Já havia escrito neste espaço que os latino-americanos não vão para o Brasil atrás das belezas naturais de São Paulo, mas sim de oportunidades de vida melhores, fugindo da miséria. Miséria da qual, muitas vezes, somos co-responsáveis por explorar terra, trabalho e recursos naturais lá. Guardadas as proporções, é a mesma coisa que empresas e governos daqui do hemisfério norte fazem com a gente daí. Reclamamos de empresas estrangeiras operando no Brasil, porém, quando alguém na Bolívia ou no Paraguai pensa em rever contratos para tornar menos dolorosa a exploração, a opinião pública daqui brada aos quatro ventos o absurdo que é essa ousadia.

Uma amiga me mandou o texto de uma campanha que está circulando na Espanha. Apesar de errar um pouco nas referências, acerta na idéia final: “Seu Cristo é judeu, sua escrita é latina, seus números são árabes, sua democracia é grega, seu som é japonês, sua bola é coreana, seu DVD é de Hong Kong, sua camiseta é da Tailândia, seus melhores jogadores de futebol são do Brasil, seu relógio é suíço, sua pizza italiana. E você ainda vê o trabalhador imigrante como um depreciável estrangeiro?”

Afinal, o que é ser “brasileiro”? A história de nosso país é uma história de migrações, de receber gente de todos os cantos (não tão bem, é claro – São Paulo, por exemplo, é a maior cidade nordestina fora do Nordeste e, ao mesmo tempo, ostentamos um preconceito raivoso e irracional). Mas não faz sentido que viremos às costas aos que vêm de fora e adotam o Brasil, mesmo que a contragosto. Eles são tão brasileiros quanto eu e você, trabalham pelo desenvolvimento do país, mas normalmente passam invisíveis aos olhos da administração pública e do resto de nós.

Em menor grau, vivemos um problema parecido ao que a Europa enfrenta. Não, não é a dúvida se haverá trabalho e espaço para todos com os deslocamentos de imigrantes em busca de emprego (ou fugindo de catástrofes naturais), mas se as características que dão humanidade ao ser humano não estarão corroídas até lá.

MÍDIA - Acerca de jornalões e....jornalinhos.

Rovai

Não é incomum, inclusive, entre aqueles os que discutem a democratização da mídia, um certo fetiche em relação aos jornais diários brasileiros. Eles são classificados como grande mídia ou ainda como jornalões. Não vou aqui negar a influência que alguns deles têm em pautar o debate na classe média mais informada. E mesmo de influenciar veículos com poder maior de alcance. Mas a verdade é que nossos jornalões não são assim tão jornalões como alguns imaginam. E, mais do que isso, vem perdendo leitores mês a mês, ano a ano.

O último Meio e Mensagem, a partir de dados do IVC, publicou uma tabela com os atuais 20 jornais diários de maior circulação média neste ano, considerando os meses de janeiro a agosto.

Os dados impressionam. A Folha de S. Paulo ainda se segura por uma diferença mínima como primeira do ranking. Sua circulação é de 295.781 exemplares. Ou seja, num país de quase 200 milhões de pessoas isso significa 0,15% da população. Jornalão? E nos 8 meses deste ano em relação ao ano passado, o jornal dos Frias perdeu 6,13 dos seus leitores.

Mas o O Estado de S. Paulo, seu concorrente direto, está numa situação ainda mais delicada. Hoje é o quinto no ranking nacional. Está atrás do Supernotícia, da região metropolitana de BH, o maior fenômeno do segmento nos últimos anos, e também do Extra e de O Globo. O Estado perdeu neste ano, comparando com o ano passado, 16,59% na circulação, que hoje é de 213.205. Jornalão?

Se você olhar a tabela vai perceber que pelo andar da carruagem em breve o famoso Estadão vai perder a quinta colocação, não só para o popular carioca Meia Hora, mas também para o gaúcho Zero Hora.

Aliás, os três diários do Rio Grande do Sul juntos (Zero Hora, Correio do Povo e Diário Gaúcho) tem circulação próxima à da Folha e do Estado somados.

Há um claro crescimento do segmento popular entre os jornais diários vendidos (não vou tratar dos gratuitos, farei isso num próximo post). Além dos Supernotícia, um jornal lançado no fim do ano passado em Manaus, o Dez Minutos, já tem circulação média de 55.687 exemplares. E é o 18º do ranking nacional.

Enquanto isso, o Jornal da Tarde, do Grupo O Estado de S. Paulo, que em outros tempos foi tão importante, inclusive possibilitando um jornalismo mais autoral, não aparece nem entre os 20, pois chega a 50 mil exemplares. Jornalão?

Por fim, as organizações Globo não venderam o Diário de São Paulo porque apareceu um bom negócio, mas porque, ao comprar o veículo em 2001, ele tinha 110 mil exemplares de circulação. E agora nesta última aferição está com 59.299.

Os antigos donos do nosso jornalismo impresso diário brasileiro ainda não perceberam que a qualidade de seus veículos só tem piorado, mas quem compra jornal já percebeu. E tem procurado outros veículos. Ou buscado blogues e sites que tratam melhor a informação.

PS: Estou a caminho de São Carlos, onde participo daqui a pouco como debatedor da Conferência Municipal de Comunicação da cidade.
Fonte:Blog do Rovai

MÍDIA - Imprensa livre é imprensa privada?

Emir Sader

A ideologia liberal – dominante nestes tempos – costuma caracterizar se um país é democrático, pelo seu regime político, fazendo suas perguntas clássicas: se há pluralismo partidário, separação de poderes no Estado, eleições periódicas e imprensa livre. Não contempla a natureza social do país, se há universalização de direitos básicos, se se trata de uma democracia social ou apenas do sistema político.

Um dos problemas dessa visão redutiva que marca o liberalismo, seccionando a esfera político-institucional do resto da formação social, é que vai buscar a resposta no lugar errado. Saber se um país é democrático é saber se sua sociedade é democrática. O sistema político é uma parte dela e deveria estar em função não de si mesmo, mas de criar uma sociedade democrática.

Mas o pior desses critérios é tentar fazer passar que imprensa privada é critério de democracia. Imprensa privada (isto é, fundada na propriedade privada, na empresa privada) como sinônimo de imprensa livre é uma contradição nos termos. Imprensa centrada na empresa privada significa a subordinação do jornalismo a critérios de empresa – lucro, custo-benefício, etc. . etc., a ser financiado por um dos agentes sociais mais importantes – as grandes empresas. O que faz com que a chamada imprensa “livre” seja, ao contrário, uma imprensa caudatária dos setores mais ricos da sociedade, presa a seus interesses, de rabo preso com as elites dominantes.

A chamada imprensa “livre” representa os interesses do mercado, dos setores que anunciam nos veículos produzidos por essas empresas, que são mercadorias, que transformam as noticias e as colunas que publicam em mercadorias, que são compradas e vendidas, como toda mercadoria.

Antes de serem vendidos aos leitores, os jornais – assim como os outros veículos – são primeiro vendidos às agencias de publicidade, que são os instrumentos fundamentais de financiamento da imprensa “livre”. “Um anúncio de uma página em Les Echos (publicação econômica francesa), com tarifa normal, rende mais do que a totalidade de suas vendas nas bancas” – diz Serge Halimi, em artigo no Le Monde Diplomatique de outubro.

São então “livres” de quê? Do controle social, da transparência do seu financiamento, da construção democrática da opinião pública. Prisioneiros do mercado, dos anúncios, das agências de publicidade, das grandes empresas privadas, do dinheiro.

Uma imprensa livre, democrática, transparente, não pode ser uma imprensa privada, isto é, mercantil. Tem que ser uma imprensa pública, de propriedade social e não privada (e familiar, como é o caso das empresas jornalísticas brasileiras).

A Conferência Nacional de Comunicacáo, a ser realizada em novembro, é um momento único para redefinir as leis brasileiras, promovendo a construçãao e o fortalecimento de uma imprensa realmente livre, democrática, transparente, pública.

CUBA - EUA mais uma vez isolados.

Adital

A Assembleia Geral da ONU aprovou com 187 votos a favor, 2 abstenções e três países contra a Resolução cubana Necessidade de Por Fim ao Bloqueio Econômico.

Cuba obteve hoje outra vitória política quando a Assembleia Geral da ONU aprovou por 187 votos a favor a Resolução cubana Necessidade de Por Fim ao Bloqueio Econômico, Comercial e Financeiro dos Estados Unidos contra Cuba. Somente dois países se abstiveram; e três votaram contra: EUA; seu aliado, Israel e Palau. As que se abstiveram -Micronésia e Ilhas Marshall- foram protetorados estadunidenses até os anos 90.

A votação agrega duas nações a mais as que no ano passado deram seu apoio à reclamação de Cuba e evidencia a justeza de sua demanda, respaldada no plenário por oradores de diversas nações que coincidiram em seu chamado aos Estados Unidos para que mude sua política em relação à Ilha.

O texto adotado pelo plenário chama todos os Estados a absterem-se de promulgar e aplicar leis e medidas desse tipo em cumprimento da Carta da ONU e do direito internacional, instrumentos que reafirmam a liberdade de comércio e navegação.

Também insta uma vez mais aos Estados Unidos nos que existem e continuam aplicando-se leis e medidas desse tipo e que, no prazo mais breve possível e de acordo com seu ordenamento jurídico, tomem as medidas necessárias para derrogá-las ou torná-las sem efeito. E inclui uma nova análise do tema no programa provisório de seu sexagésimo quinto período de sessões, no próximo ano.

Na parte inicial, o documento reafirma, entre outros, os princípios de igualdade soberana dos Estados, a não intervenção e não ingerência nos assuntos internos e a liberdade de comércio e navegação internacionais.

Recorda declarações das cúpulas iberoamericanas relativas à necessidade de eliminar a aplicação unilateral de medidas de caráter econômico e comercial contra outro Estado que atinjam o livre desenvolvimento do comércio internacional.

E expressa preocupação ante a promulgação e aplicação de leis e disposições, como a chamada Lei Helms-Burton (EUA), cujos efeitos extraterritoriais atingem a soberania de outros Estados, os interesses legítimos de entidades ou pessoas e a liberdade de comércio e navegação.

A respeito, menciona as 17 resoluções aprovadas pela Assembleia Geral a cada ano de 1992 até 2008 e as declarações e acordos de distintos fóruns intergovernamentais, órgãos e governos em rechaço à promulgação e aplicação de medidas desse tipo.

Adverte que continua a aplicação de novas formas dirigidas a reforçar e ampliar o assédio e expressa preocupação pelos efeitos negativos dessas disposições sobre a população cubana e sobre os cubanos residentes em outros países.

HONDURAS - Golpistas de Honduras denunciam Brasil em Haia.

Micheletti acusa governo Lula de ingerência em assuntos internos e diálogo interno, aparentemente esgotado, tenta última saída com chegada de negociadores dos Estados Unidos

Por: João Peres

O Ministério das Relações Exteriores de Honduras informou nesta quarta-feira (28) ter entrado com uma denúncia contra o Brasil na Corte Internacional de Justiça de Haia. O governo brasileiro é acusado de ingerência em assuntos internos por ter recebido em sua embaixada em Tegucigalpa o presidente legítimo do país, Manuel Zelaya, deposto em um golpe que completou quatro meses.

Procurado, o Itamaraty informou por sua assessoria de imprensa que não foi comunicado sobre a decisão e que não há qualquer posicionamento a respeito. De qualquer maneira, o Brasil e a comunidade internacional não reconhecem o regime golpista, e não devem aceitar as eleições presidenciais marcadas para novembro.

Por outro lado, a aposta dos golpistas, liderados por Roberto Micheletti, é ganhar tempo e conseguir que as eleições deem fim à crise que os próprios criaram. "A restituição do ex-presidente Manuel Zelaya está claro que não será contemplada em um possível acordo entre as duas comissões por ser inconstitucional", insistiu Micheletti em comunicado nesta quarta-feira.

Zelaya, no entanto, afirmou que é ele a única solução para legitimar as eleições. O deposto manifestou mais de uma vez que aceita voltar ao cargo com poderes reduzidos e que se submete às decisões da Justiça, desde que seja garantido um julgamento isento.
Última saída

A chegada nesta quarta de negociadores dos Estados Unidos é vista como uma última possibilidade de conseguir um acordo. A delegação é comandada pelo secretário-adjunto para assuntos do Hemisfério Ocidental, Thomas Shannon, que depende de aprovação do Senado para ser o embaixador do país no Brasil.

Na terça-feira, o porta-voz do Departamento de Estado, Ian Kelly, manifestou que a situação em Honduras é bastante urgente. "Queremos ver uma eleição, que acontecerá exatamente em um mês, que tenha o tipo de legitimidade internacional que a população de Honduras merece para seu governo", afirmou.

Dentro do governo de Barack Obama há uma discussão sobre o reconhecimento das eleições do próximo mês. Sob pressão do Congresso, o governo pode acabar aceitando o pleito de novembro.
Fonte:Revista do Brasil.

SÍTIO CALDEIRÃO, O ARAGUAIA DO CEARÁ.

OTONIEL AJALA DOURADO

No CEARÁ, para quem não sabe, houve também um crime idêntico ao do “Araguaia”, contudo em piores proporções, foi o MASSACRE praticado por forças do Exército e da Polícia Militar do Ceará no ano de 1937, contra a comunidade de camponeses católicos do Sítio da Santa Cruz do Deserto ou Sítio Caldeirão, que tinha como líder religioso o beato JOSÉ LOURENÇO, seguidor do padre Cícero Romão Batista.

A ação criminosa deu-se inicialmente através de bombardeio aéreo, e depois, no solo, os militares usando armas diversas, como fuzis, revólveres, pistolas, facas e facões, assassinaram mulheres grávidas, crianças, adolescentes, idosos, doentes e todo o ser vivo que estivesse ao alcance de suas armas, agindo como feras enlouquecidas, como se ao mesmo tempo, fossem juízes e algozes.

Como o crime praticado pelo Exército e pela Polícia Militar do Ceará foi de LESA HUMANIDADE / GENOCÍDIO / CRIME CONTRA A HUMANIDADE é considerado IMPRESCRITÍVEL pela legislação brasileira bem como pelos Acordos e Convenções internacionais, e por isso a SOS - DIREITOS HUMANOS, ONG com sede em Fortaleza - Ceará, ajuizou no ano de 2008 uma Ação Civil Pública na Justiça Federal contra a União Federal e o Estado do Ceará, requerendo que sejam obrigados a informar a localização exata da COVA COLETIVA onde esconderam os corpos dos camponeses católicos assassinados na ação militar de 1937.

Vale frisar que a Universidade Federal do Ceará – UFC, no início de 2009 enviou pessoal para auxiliar nas buscas dos restos dos corpos dos guerrilheiros mortos no ARAGUAIA, esquecendo-se de procurar na CHAPADA DO ARRARIPE, interior do Ceará, uma COVA COM 1000 camponeses.

Seria discriminação por serem as vítimas do SÍTIO CALDEIRÃO “meros nordestinos católicos”?

Diante disto aproveitamos a oportunidade para pedir o apoio de todos os cidadãos de bem nessa luta, no sentido de divulgar o CRIME PERMANENTE praticado contra os habitantes do SÍTIO CALDEIRÃO, bem como, o direito das vítimas serem encontradas e enterradas com dignidade, para que não fiquem para sempre esquecidas em alguma cova coletiva na CHAPADA DO ARARIPE.


Dr. OTONIEL AJALA DOURADO
OAB/CE 9288 – (85) 8613.1197
Presidente da SOS - DIREITOS HUMANOS
www.sosdireitoshumanos.org.br

ANOS DE CHUMBO - Não ao esquecimento.

Cecília Bouças Coimbra e Elizabeth Silveira e Silva *

Adital

"Tornarem-se senhores da memória e do esquecimento
é uma das grandes preocupações das classes, dos grupos,
dos indivíduos que dominaram e dominam as sociedades"

Ana Paula Goulart Ribeiro

O Grupo Tortura Nunca Mais/RJ, fundado em 1985, tem assumido um claro compromisso na luta pelos direitos humanos, pelo esclarecimento das circunstâncias das mortes e desaparecimentos ocorridos durante o período de ditadura militar e, ainda hoje, pelo afastamento imediato de cargos públicos das pessoas envolvidas com torturas e outras violações, afirmando uma postura ética, convicto de que estas são condições indispensáveis na luta hoje contra o esquecimento e a história oficial que nos tem sido apresentada.

Desde sua criação, portanto, o GTNM/RJ vem buscando informações oficiais sobre como, quando, por que, onde e por quem foram presos e assassinados os opositores políticos.

Em 1982, ainda durante o período da ditadura militar, foi ajuizada uma ação de responsabilidade da União perante a Justiça Federal, no Distrito Federal, na qual 22 famílias de desaparecidos políticos na Guerrilha do Araguaia solicitavam o esclarecimento das circunstâncias das mortes, bem como a localização dos restos mortais e os respectivos atestados de óbitos daqueles militantes.

O processo se arrastou durante 21 anos quando, em 20 de junho de 2003, foi prolatada a sentença da Juíza titular da 1ª Vara Federal da Seção Judiciária do Distrito Federal, Dra. Solange Salgado da Silva Ramos de Vasconcelos, determinando a quebra do sigilo das informações militares de todas as operações referentes à Guerrilha do Araguaia.

Em novembro de 2003, a União recorreu, negando o direito dos familiares e de toda a sociedade brasileira às informações sobre esse período da nossa história, limitando-se apenas a acatar a determinação de localizar os restos mortais dos desaparecidos na Guerrilha do Araguaia - o que já consta da Lei 9.140/95 que, no entanto, atribuiu aos familiares os ônus das provas. Esta lei criou a Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos que vem funcionando até hoje, sendo que um de seus objetivos é o de localizar os restos mortais dos desaparecidos, desde que lhe sejam fornecidas informações sobre os locais de sepultamento.

Entretanto, desde 2001, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA havia feito a denúncia apresentada pelas entidades Centro pela Justiça e o Direito Internacional (CEJIL), Grupo Tortura Nunca Mais/RJ (GTNM/RJ) e a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos de São Paulo contra o governo brasileiro, que não encaminhou as investigações sobre as circunstâncias das mortes e desaparecimentos ocorridos no Araguaia.

Em resposta à mobilização das entidades de diretos humanos nacionais e internacionais condenando a posição da União de recorrer da decisão judicial da juíza Solange Salgado, o governo federal, em outubro de 2003, criou uma Comissão Interministerial, constituída pelos Ministros da Justiça, da Defesa, da Casa Civil, pelo Secretário Especial de Direitos Humanos e pela Advocacia Geral da União, com a finalidade de obter informações sobre a localização dos restos mortais de participantes da Guerrilha do Araguaia. Esta comissão tinha um prazo de quatro meses, renováveis por mais dois, para reunir os elementos necessários à localização dos corpos dos militantes desaparecidos.

Somente em março de 2007, após três anos e cinco meses, foi divulgado o relatório da Comissão Interministerial informando que as três forças armadas não possuíam nenhum documento acerca do ocorrido na região do Araguaia entre 1972 e 1974.

Sabemos que existem inúmeras cópias de documentos daquele período em mãos de militares reformados, de particulares e na própria Secretaria Especial de Diretos Humanos que comprovam a existência desses arquivos. Em junho de 2009, por exemplo, o major do exercito Sebastião Curió Rodrigues de Moura - um dos repressores da guerrilha do Araguaia - apresentou ao Jornal Estado de São Paulo o que chamou de sua documentação sobre a guerrilha. Dentre outras informações afirmou que 41 guerrilheiros foram assassinados após terem sido presos.

Diante da indignação dos familiares, dos movimentos de direitos humanos e das pressões nacionais e internacionais, o governo federal, em mais uma mis-en-scene, em 3 de junho de 2009, formou, sobre a coordenação do Ministério da Defesa, um outro Grupo de Trabalho para localizar e identificar os corpos dos guerrilheiros na região do Araguaia, integrado fundamentalmente por militares do exército. Um deles, o General de Brigada Mario Lucio Alves de Araujo, comandante da equipe de apoio logístico no Araguaia, em 31 de março de 2008, em entrevista a um jornal, elogiou o golpe de 1964.

Mais uma onda de manifestações contrárias ocorreu e, diante disto, em 17 de julho de 2009, o governo criou um Comitê Interinstitucional de Supervisão das atividades daquele Grupo de Trabalho. Curiosamente este comitê também é coordenado pelo Ministro da Defesa e composto por militares, por alguns membros da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos e pelo que esta sendo chamado de "observadores independentes". Dentre eles, para surpresa de todos nós, consta o nome do Sr. Hugo Studart, que em seu livro sobre a guerrilha do Araguaia teve acesso a documentos oficiais das forças armadas, mantendo o nome dos militares em sigilo, utilizando seus codinomes. Esta "pesquisa histórica" continua encobrindo todos os responsáveis pelos crimes cometidos em nome da segurança nacional. Por tudo isso, os familiares e várias entidades de direitos humanos nacionais e internacionais estão exigindo do atual governo federal que:

• Outro Grupo de Trabalho seja criado e coordenado pela Secretaria Especial de Direitos Humanos com a participação efetiva da Comissão Especial dos Mortos e Desaparecidos. Entendemos que neste Grupo de Trabalho seja necessária a presença de familiares, de entidades de direitos humanos, do Ministério Público Federal, bem como de outras instituições da sociedade civil. Defendemos, portanto, que esse GT não tenha majoritariamente um caráter governamental, mas que seja apoiado efetivamente pelos órgãos oficiais no sentido de fornecer toda e qualquer infraestrutura necessária para a concretização dos trabalhos.

• Toda a documentação e depoimentos que foram acumulados ao longo dos últimos trinta anos através das várias caravanas realizadas pelos familiares e entidades na região do Araguaia sejam utilizados por este Grupo de Trabalho, assim como toda a documentação recolhida pelo Ministério Público Federal na região em 2001.

• Os documentos que se encontram em poder de militares e ex-membros do aparato de repressão - já declarados por eles publicamente - sejam exigidos judicialmente.

• A população local seja ouvida e seus depoimentos considerados documentos oficiais.

• Todos os militares e civis envolvidos na repressão à guerrilha do Araguaia sejam convocados judicialmente para depoimento.

• Todos os arquivos da ditadura sejam divulgados de forma ampla, geral e irrestrita.

Exigimos, portanto, que toda a sociedade brasileira saiba onde, como, quando e por quem foram praticados os crimes de lesa humanidade ocorridos no período de 1964 a 1985.

[http://www.corecon-rj.org.br/pdf/JE_agosto2009.pdf]

* Psicóloga e atual presidente do Grupo Tortura Nunca Mais-RJ / Bióloga e atual tesoureira do Grupo Tortura Nunca Mais

URUGUAI - Triste vitória para a "Frente Ampla", amarga derrota para o povo uruguaio.

Sergio Labayen

Adital

A noite do passado domingo passará à história como uma das mais tristes para a esquerda uruguaia. Que a ‘Frente Amplio’ (FA) não alcançasse a maioria absoluta estava entre as possibilidades; porém, ninguém poderia imaginar que a luta pelos direitos humanos levaria tamanho golpe. Apenas 42,7% votaram pela anulação da Lei de caducidade, o que desenha um cenário que não ajuda na corrida final de Mujica rumo à presidência.

Até às 20 horas tudo era otimismo na sede do comando eleitoral da Frente Amplio. Os primeiros dados colocavam a coalizão no limite da maioria absoluta e se considerava a lei de caducidade como já anulada. No entanto, passada essa hora, alguns dirigentes começaram a indicar que algo ia mal. Às portas do hotel, em uma grande esplanada apinhada de gente, bandeiras e furor, as lágrimas começaram a aparecer de repente, quando as rádios divulgaram o dado de uma provável derrota do plebiscito pela derrogação da impunidade.

A posterior conferência de imprensa de Mujica e de Astori veio a agregar um novo golpe aos que confiavam reeditar a maioria absoluta. O candidato sublinhou uma ideia: a sociedade exige a Frente Amplio "um esforço maior", um mês mais de batalha política com "um ponto de partida muito otimista". "Estou encantado com esse resultado porque sou homem de luta e nunca ninguém me deu nada", disse Mujica; porém, o clima não era de vitória.

A partir daí, as pesquisas de boca de urna foram divulgando sucessivos golpes aos milhares de frenteamplistas que aguardavam na rua, sem abrir as garrafas: a coalizão não conseguia maioria em nenhuma das quatro câmaras; brancos e colorados os superavam em votos; o plebiscito pelo voto exterior apenas alcançava os 35% dos apoios...

"Vamos adiante!"

Os líderes de Frente Amplio apressaram-se a sair ao balcão para tentar levantar o ânimo das pessoas. Mas, tanto suas caras quanto as caras dos seguidores falavam por si; porém, todos conchavavam em uma "vamos adiante" coletivo que voltou a levantar as bandeiras e os ânimos, colocando o foco na pequena porcentagem que os separa da maioria no segundo turno.

Simbolicamente, Mujica e Astori envolveram-se em importantes bandeiras uruguaias e incidiram em que a partir de agora não se trata de uma contenda entre partidos, mas entre dois modelos de país. Assim, os dirigentes de FA incidiu em seu discurso mais centrista e conciliador, reiterando sua proposta de acordo com a oposição em quatro áreas estratégicas para o país (educação, segurança, energia e meio ambiente).

A umas centenas de metros, na sede do Partido Nacional (PN), respirava-se um ambiente bem distinto. Os brancos reduziram seu número de apoios, algo já esperado; porém, a evidência de um segundo turno desatou a festa entre suas bases, sobretudo quando Pedro Bordaberry, do Partido Colorado (PC) adiantou que apoiará a Lacalle. Ambos partidos coordenarão "ações imediatas" esta semana, em uma tentativa de capitalizar a derrota psicológica de FA e de tornar crível uma alternativa a Pepe Mujica. No momento, as maiores ovações na manifestação de Lacalle aconteceram quando o telão de sua sede divulgava imagens do painel que exibia um militante: "Não queremos um presidente assassino".

Com detalhes desse tipo, na noite do domingo, respirava-se um ambiente estranho nas ruas de Montevidéu. Conforme passavam as horas, as duas metades do país mostravam-se não comumente enfrentadas em um país tão politicamente correto. Pessoas gritavam nos carros, nas calçadas, enquanto agitavam bandeiras e acusavam-se mutuamente: "Mujica assassino!", gritavam uns. "Ladrões!", replicavam outros. Essas expressões de enfrentamento serão anedóticas e a classe política saberá reconduzi-las para o clássico "savoir faire" oriental; porém, denotam que vem por aí um choque de trens entre os dois Uruguais possíveis após o dia 29 de novembro. São duas alternativas de país não tão distintas no fundo; porém, sim, muito antagônicas nas formas, até o ponto de que chegam a repelir-se em uma sociedade que não suturou completamente as feridas da ditadura.

Golpe à memória

Foi duro o golpe recebido pelo movimento popular que havia posto todos seus esforços na campanha pela anulação da Lei de caducidade. No local da Federação de estudantes respirava-se a desolação e não faltavam as críticas ao oficialismo, por não ter-se esforçado mais na derrogação da lei. Os sentimentos eram tão contraditórios que alguns seguidores de FA mostravam seu entusiasmo pela vitória eleitoral, enquanto outros choravam e pediam respeito -ou um certo ‘luto’- diante da derrota do plebiscito.

Todos os dados conhecidos nessa noite correspondiam a sondagens de boca de urna, que costumam afinar tanto os resultados finais que suas projeções são consideradas seguras.

Assim, os uruguaios foram dormir pensando que os votos pelo SIM haviam rondado os 47%; porém, na manhã da segunda-feira, 24, agregou-se mais um toque de crueldade à derrota da papeleta rosada. Meio dia, o ministro da Corte Eleitoral informou os dados oficiais da votação e anunciou para surpresa de muitos que a Lei de Caducidade havia sido anulada. As mensagens de texto começaram a circular e o panorama que abria era bem distinto ao da noite anterior. No entanto, tratava-se de um tremendo erro, já que os dados correspondiam à capital e foram desmentidos em apenas meia hora. O resultado real havia sido bem distinto; agora, mal para a defesa dos direitos humanos: apenas 42,7% de votos pelo fim da impunidade.

"Me dá vergonha"

Algumas reações estão sendo contundentes: "Me dá vergonha viver nesse país desmemoriado", se lê em um mapa do Uruguai que começa a circular na Internet. O fato é que, 20 anos depois do primeiro referendo pela derrogação da lei, agora se conseguiu menos apoios do que naquela época, quando a ameaça militar já não parece ser um problema, com muitíssimos daqueles votantes que morreram e foram substituídos por novas gerações, após cinco anos de governo de FA, que pressupõem uma mudança cultural e ideológica no país. "o que aconteceu?", ressoa pelas esquinas do país.

A notícia correu rapidamente pelos países vizinhos onde também existem ativos movimentos pelos direitos humanos. De fato, a anulação da Lei de Caducidade era importante não somente pela necessidade de julgar aos repressores uruguaios, mas também como uma medida preventiva frente às futuras tentações ditatoriais dos caudilhos militares de turno em todo o continente. E o certo é que os promotores do golpe de Estado de Honduras, ou os que tentam desestabilizar os processos na Venezuela e na Bolívia, receberam ontem uma mensagem que podem interpretar em chave de mais impunidade para seus feitos. Porque se uma sociedade tão legalista como a uruguaia manifesta-se tão passiva na defesa de sua democracia, se é o mesmo que os juízes possam investigar ou não os crimes cometidos durante a ditadura, que reação pode-se esperar dos impulsionadores do Plano Condor? Se arrependerão das matanças e dos atropelos cometidos na América Latina? Que consequências terá este ‘cheque em branco’ que o golpismo acaba de receber?

A ressaca dos plebiscitos

A derrota da papeleta rosada ainda deve ser digerida e seus efeitos são todavia insuspeitos; porém, em princípio não colabora na carreira de Pepe Mujica para a presidência. Muitos militantes sociais mostram-se decepcionados com a vacilação de FA frente à Lei da caducidade, primeiro porque poderiam ter derrogado a Lei e não o fizeram, de forma que o movimento popular teve que forçar a realização do plebiscito. E agora, na campanha porque o apoio formal de FA soa com músicas distintas em cada uma de suas correntes internas e mais ou menos forte segundo a deriva política geral.

Na realidade, parece lógico que uma vitória do SIM pudesse ser vista por Mujica como uma tremenda batata quente sobre seu mandato: Como moderar o trabalho de governo se ele, um refém da ditadura, deve "meter na cadeia" a seus carcereiros? Como conseguirá os pactos de Estado que quer assinar com a oposição se se reavivam as velhas tensões entre tupamaros e "milicos"? Assim, as contradições eram de calado em qualquer das hipóteses; porém, se o golpe que indica o escasso apoio social a esse plebiscito poderia reabrir velhas feridas na esquerda. No momento, o candidato da Assembleia Popular anunciou que votará nulo no segundo turno, uma opção que também se escuta entre alguns militantes de bairros.

A derrota do segundo plebiscito -o voto por correio dos imigrantes- foi maior: 35% de apoio, significando derrota para a FA. Estima-se que 2,5% de seus apoios provêm do exterior, principalmente de Buenos Aires, e muitos pensarão duas vezes na hora de viajar de novo para votar no segundo turno, ainda mais quando o país acaba de dar as costas à possibilidade de que se integrem com normalidade nos processos eleitorais.

Resultados com 100% contabilizado

Segundo os resultados divulgados ontem, a FA alcançou 47,49% dos votos; o Partido Nacional, 28,54%; o Partido Colorado, 16,67%; o Partido Independente, 2,44% e o Assembleia popular, 0,67%. Quanto á composição das Câmaras, no Senado há empate técnico que se resolverá após os resultados do segundo turno. Na Câmara dos Deputados, um novo empate para 49 deputados entre a FA e o restante dos partidos, com um assento todavia provisório, já que existe um total de 32.000 votos observados (nos quais detectou-se algum tipo de irregularidade) que serão os que definam se a FA tem ou não a maioria parlamentar.

Definitivamente, Pepe Mujica continua sendo o favorito para alcançar a presidência; porém, hoje isso é mais difícil do que ontem. O único dado comparativo, de 10 anos atrás, nos diz que brancos e colorados uniram 100% de seus votos e derrotaram a FA no segundo turno. Porém, é certo que a sociedade uruguaia mudou muito desde esse tempo. Mas, mudou até que ponto??

* Rebelión

terça-feira, 27 de outubro de 2009

A EMERSÃO DA ÁFRICA.

Por Mauro Santayana

Como tudo começou na África, é provável que na África se complete o destino humano. Os primeiros seres humanos surgiram ali. As alterações em sua aparência foram provocadas pela graduação da latitude terrestre, para onde migraram os grupos nômades. No Norte da África nasceram os assentamentos agrícolas e uma singular e pioneira civilização, a dos egípcios, no Vale do Nilo.

Durante muitos séculos, com o desenvolvimento da civilização hindu e chinesa na Ásia, e a do Mediterrâneo, que construiria o que chamamos Ocidente, a África Negra ficou isolada. Os europeus a redescobriram durante as grandes navegações, mas dela se aproveitaram na crueldade da exploração colonialista e no comércio de escravos.

Em Roma, no último fim de semana, os 247 bispos e 14 cardeais católicos da África falaram ao papa em uma linguagem nova. Durante as três semanas de deliberações, no Sínodo que os reuniu, os prelados negros assumiram o discurso antiglobalizador e atacaram claramente a política financeira mundial. O documento final aponta as consequências dessa situação, ou seja, as guerras e os conflitos, crises e caos. E critica, com vigor, “as decisões e atos de pessoas que não têm qualquer consideração pelo bem comum na cumplicidade trágica entre os responsáveis locais e os interesses estrangeiros”.

O arcebispo Onaiyekan, de Abuja, na Nigéria, foi firme e conciso: “Não posso imaginar que a British Petroleum, a Shell ou a Mobil façam, no Mar do Norte ou no Texas, o que fazem no delta do Rio Níger”. Os prelados acusaram também a Organização Mundial do Comércio, que sufoca a agricultura e a indústria locais, impedindo a autossubsistência. Os participantes defenderam a versão africana da Teologia da Libertação, elaborada por dois teólogos da República dos Camarões, o jesuíta Engelbert Mweng e seu discípulo Jean Marc Ela.

A esperança da Igreja se encontra nos países africanos e asiáticos, onde o catolicismo cresce, enquanto míngua na Europa e nos Estados Unidos, enquanto as seitas pentecostais crescem na América Latina. De acordo com o Vaticano, nos últimos dez anos, o catolicismo africano cresceu sete vezes mais. Inverte-se o fluxo histórico de sacerdotes. Hoje, na Itália, sede do Vaticano, 30% das paróquias contam com sacerdotes extracomunitários, na maioria procedentes dos países ao sul do Saara. A Igreja está enviando também ao Brasil sacerdotes asiáticos e africanos. Dentro de dez anos, segundo se calcula, um quarto dos habitantes da África será de batizados, enquanto na Europa não passam de 20% os que receberam o sacramento.

Há novo avanço estrangeiro sobre a África, sobretudo dos chineses. Mas se desenha, no tempo, nova aliança atlântica, bem distinta da que se formou ao norte, para a defesa do capitalismo ocidental, com a Otan. Essa aliança do Atlântico Sul, reunindo a África e a América Latina, se institucionaliza, em primeiro lugar, com a ação diplomática do governo brasileiro. O Atlântico sempre foi, mesmo nos tempos coloniais, o nosso mar comum, quando Luanda era o espelho de Salvador. Nosso entendimento com os africanos é favorecido por uma história compartilhada, a partir da fatalidade do colonialismo. A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, iniciativa de José Aparecido de Oliveira, é hoje o instrumento para a intensificação de nossas relações econômicas e culturais com o continente, a partir de Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Essa é a grande oportunidade para uma associação que pode afastar preconceitos antigos e contribuir para nova idade histórica.

O catolicismo romano se fez no sincretismo da teologia pagã com a mensagem do Evangelho. Nós temos, no Brasil, o rico amálgama do animismo africano com o catolicismo, ainda que a hierarquia se esforce em desconhecê-lo, quando não em condená-lo. Ver Deus em todas as suas criaturas – e, por que não, em todas as manifestações da transcendência – é um bom caminho para a paz. Os fariseus tinham uma pergunta para desdenhar a pregação de Cristo: “Pode alguma coisa boa vir de Nazaré?”.

É provável que alguém pense a mesma coisa da corajosa palavra dos bispos negros em Roma, embora o racismo seja o mais anticristão dos sentimentos.

A sobrevivência da Igreja Católica depende da Teologia da Libertação, na África e na América Latina, única forma de devolver os pobres a Cristo, e Cristo aos pobres.
Fonte:JB

CUBA - Fumo livre e Guerra Fria no Balaio.

Balaio do Kotscho

Assim que entrei no salão de desembarque do aeroporto José Marti em Havana, depois de umas doze horas de viagem entre aviões e conexões, logo senti que havia algo diferente no ar. Sim, era o cheiro de tabaco queimado, algo cada vez mais raro em São Paulo. Enquanto esperava a mala, vi várias pessoas fumando ali mesmo e me senti livre para acender um cigarro também. Ninguém me olhou feio.

No táxi, em qualquer área do hotel, nos restaurantes, em qualquer lugar o fumo é livre em Cuba. Pode parecer uma bobagem, algo politicamente incorreto, eu sei, mas me deu uma boa sensação de liberdade, depois de tanto tempo, não ser reprimido nem tratado como um pária, um ser nocivo à sociedade.

Até hoje, não há nenhuma indicação científica de que os cubanos estejam vivendo menos do que nós porque a maioria continua fumando em qualquer lugar. Ao contrário, a expectativa de vida lá é de 75 anos, maior do que a dos brasileiros.

Nem falei disso ontem na minha cronica de viagem sobre as 72 horas que passei em Havana na semana passada, para não despertar ainda mais a ira dos que parecem viver até hoje na Guerra Fria, vinte anos após a queda do Muro de Berlim. Pelos comentários enviados ao Balaio, percebi que basta falar em Cuba para que recomece o mesmo tiroteio verbal feito de velhos chavões, de um lado e de outro, que já dura meio século.

Só toco neste assunto hoje por causa de uma brincadeira que fizeram comigo na cerimonia de entrega do 31º Premio Vladimir Herzog, na noite de segunda-feira, no Tuca. Ao ser chamado parta falar na homenagem prestada ao Audálio Dantas, valente presidente do Sindicato dos Jornalistas na época do assassinato de Herzog, outro amigo, Sergio Gomes, demorou-se para subir ao palco.

Ao se desculpar pela mancada, explicou que estava fora do teatro fumando um cigarro comigo e me dedou em público ao governador José Serra, o líder da cruzada antitabagista, presente à cerimônia. Todo mundo achou graça, contaram-me os amigos, mas depois me vinguei do Serjão, brincando que, depois de velho, ele tinha virado dedo-duro _ justo ele, que foi preso junto com Herzog, porque alguém o dedou…

Brincadeiras à parte, esta questão da proibição radical do fumo em São Paulo é apenas um sinal do crescente sentimento de intolerância que tenho notado nas pessoas nos útimos tempos _ em todas as áreas da vida nacional, da política à religião, do futebol aos movimentos sociais. Aqui mesmo no Balaio uns agridem os outros simplesmente por pensarem de forma diferente, argumentos são logo trocados por ofensas.

Vários leitores me mandaram ir morar em Cuba e bateram pesado só porque contei as minhas impressões de viagem, como costumo fazer sempre que vou a outros lugares e relato aos leitores o que vi e ouvi. Não tem nada uma coisa a ver com outra.

Gostar do povo cubano e do seu país não quer dizer que eu defenda o regime político em que vivem, mas não sou eu quem vai dizer para eles o que está certo ou errado, quais são os caminhos que devem seguir. Problema deles. Como jornalista, jamais poderia viver em Cuba porque lá só existe uma indigente imprensa oficial e eu prezo muito a minha liberdade.

Para mim, o melhor lugar do mundo para se viver é o Brasil, mas muitos leitores não pensam assim. Também é problema deles. Só peço que neste espaço todos procurem respeitar mais a opinião alheia, não só a minha, mas as dos demais leitores. Ao contrário de outros blogs, vocês sabem, aqui não excluo quem pensa diferente, mas apenas os que confudem liberdade de expressão com baixaria e preconceito.

Para que ninguém me entenda mal, quero dizer também que, apesar de fumante, aprovo as restrições ao cigarro em determinados locais, respeito o direito de quem não fuma, e acharia ótimo se pudesse largar esta porcaria, mas não concordo com os exageros. Minhas filhas e netos, graças a Deus, não fumam. Por isso, respeito a proibição da família para não fumar dentro de casa.

Só acho uma violência, um caso típico de intolerância e autoritarismo, proibir que se fume até em charutarias e tabacarias, e em varandas de bares e restaurantes onde há lugares reservados para não fumantes.